quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Nas montanhas de Karnataka

Madikeri foi o nosso destino depois da passagem rápida por Hassan. Queríamos um pouco de natureza e o alívio do calor que a montanha dá, mas, de fato, o nosso principal interesse era fazer uma visita ao assentamento tibetano-budista localizado em Bylakuppe, vilarejo próximo à cidade.


O município fica nas montanhas de Karnataka, não muito distante do mar, mas suficientemente recolhido para ter sido eleito primeiro pelos Kodavas e, mais tarde, pelos tibetanos como refúgio.

Você deve estar se perguntando quem são os Kodavas; eu também me perguntei, pois nunca havia ouvido falar deles até chegar aqui e ter alguma informação na guia Lonely Planet. De fato, nós ficamos hospedados na pousada de uma família coorg. Por isso, esse post será dedicado a eles, no próximo falarei sobre os tibetanos.

Kodavas ou Coorgs, supostamente, são descendentes de persas, curdos ou gregos que integraram o exército de Alexandre Magno! Pois é “O Grande” planejou conquistar a Índia, mas foi barrado pelos acidentes geográficos, entre outras dificuldades dadas principalmente pela distância. Portanto, aqueles guerreiros desgarrados que vieram até aqui, escolheram as montanhas de Karnataka para estabelecer-se, montarem suas famílias e mantiveram sua cultura e costumes de certa forma preservados da mesma forma que os judeus fizeram: estabelecendo-se em clãs e reproduzindo-se entre eles.


Ao que parece, os coorgs não professam uma religião específica e, embora, a guia informe que são muçulmanos, a família dona da pousada onde ficamos tinha uma simpatia pelo hinduísmo, apesar de que não eram vegetarianos. Eles têm um dialeto próprio, e muitos deles nem sequer falam a língua do estado, kannada.

O maior atrativo da pousada que ficamos, segundo a guia, costumava ser o dono, Anoop, um guia de caminhadas super comprometido com o meio-ambiente e pioneiro no trekking naquelas bandas. Entretanto, há três anos Anoop sofreu um acidente de moto quase mortal, que o deixou em coma por vários meses e comprometeu bastante a sua memória e algumas habilidades motrizes. Nós só soubemos disso porque os demais membros da família insistiram em contar a história. Não fosse por isso, não notaríamos, pois ele já está bastante recuperado.

Como está sem poder levar os grupos nas trilhas, Anoop nos indicou Pradam, um muchacho de 20 anos, super ligeirinho, que nos guiou em um trekking de 13 Km, e contou um pouco mais da história de Anoop antes do acidente, além de algumas particularidades da cultura dos coorgs. Por exemplo, nos contou que, apesar de não seguirem uma religião específica, eles adoram aos seus ancestrais. E que os jovens, tanto os homens quanto as mulheres, podem ter experiências amorosas antes do casamento, o que nos deixou surpresos. Na foto, Pradam, com sementes verdes de cardamomo na mão.

Pradam nos levou a conhecer as plantações de cardamomo, chá ee café nas montanhas de Madikeri. Subimos algumas pirambeiras generosas (ai, minhas canelas!), conhecemos uma família coorg que vivia completamente isolada e atuo-suficiente, que somente falava em dialeto, e que nos ofereceu um café roots, colhido lá mesmo por eles.


Lá conhecemos um velhinho gênio, de 95 anos, super ativo, patriarca de outra família de coorgs que só falava em dialeto. Quando chegamos, ele estava jogando bola embaixo do sol, com uma criança que, talvez, fosse seu bisneto o tataraneto. Subia a colina todos os dias para ver a vista do vale lá de cima (mais incrível que a vista do vale, para mim, era a disposição desse velho). Fez questão de nos mostrar os dentes, todos originais, hehe. E brincou conosco, dançando e mostrando como estava bem de saúde. E ainda fumou um cigarrinho, tirando onda! Sem falar uma palavra de inglês, nos comunicou muito.


Naquele momento, no alto daquela montanha, observando esse senhor, me dei conta, mais uma vez, do pouco que se precisa para ter uma vida plena, longa e feliz. Do quanto o ser humano complica a própria vida, desnecessariamente. Do quando as cidades neurotizam e enfermam as pessoas. Esse senhor era um yogin, embora não soubesse que era isso o que praticava.

Um comentário:

  1. Parabéeeeeeeeeeeens atrasado Cláclá querilda!
    Quero um post para saber como foi seu aniversário na Índia!
    Um beijo e Feliz 2012!

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