quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma história cambojana


Angkor Wat, Camboja
Depois da temporada praieira no sul tailandês, estivemos uns dias em Bangkok tentando definir como continuar nosso itinerário. A verdade é que planejamos muito bem e com antecipação a nossa jornada pelo sul da Índia, mas a passagem pelo sudeste asiático foi a menos organizada de toda a nossa viagem. E, talvez, por essa falta de organização, tivemos alguns sacudões do destino durante nossa estada no turbulento bairro de Kao San Road, em Bangkok, enquanto tentávamos encontrar o rumo da nossa viagem.

Turbulências, sim, mas nada que realmente nos fizesse perder as estribeiras e largar o timão. Como passamos por Bangkok também no retorno da “voltinha” que demos nessa parte da Ásia, deixarei para falar da capital da Tailândia num futuro post.

Depois de muito brincar de quebra-cabeça, compilar informações e tentar, sem sucesso, esticar o calendário, descartamos Myammar e Vietnã do nosso roteiro, com muita pena. Para incluir os dois países, precisávamos, no mínimo, de mais um mês de viagem.

Deu mais dó tirar Myamnar do circuito, pois, de todos, é o país menos turístico, o que, segundo escutamos, confere ao seu povo uma atitude mais autêntica, menos condicionada negativamente. Mas, enfim, chegar lá dá trabalho, por se tratar de uma ditadura que fechou a maioria das fronteiras. E viajar dentro do país também, pela precariedade das suas estradas. Entonces...vamos al Camboja!

Monges budistas nos templos de Angkor


Eis um país que me conquistou, por várias razões, e que eu não tinha nenhuma expectativa! O Camboja me encantou pela beleza e ternura das suas crianças. Aliás, deu pra entender porque Angelina Jolie decidiu ser mãe adotiva depois de passar por ali. Também me impressionou o sincretismo religioso, tão familiar para mim. Só que, no Camboja, o sincretismo é entre o hinduísmo e o budismo que, ao contrário do catolicismo e do candomblé, são religiões bem próximas. Tanto quanto o judaísmo e o cristianismo, pois Buda era hindu, assim como Jesus era judeu. Também admirei o alto astral dos cambojanos, apesar de feridas profundas ainda abertas na memória e na carne de muitos deles.


Partimos de Bangkok de manhã cedinho, a bordo de um trem que nos deixou numa cidade da fronteira, ao meio-dia. Tomamos um caminhão bem parecido a um pau-de-arara (pena que não tiramos foto), porque decidimos pagar menos e ter mais emoção. O veículo nos conduziu até a fronteira propriamente dita, onde fizemos os procedimentos burocráticos de saída da Tailândia e entrada no Camboja.

Primeiro choque: em todos os guias de viagem, tínhamos o dado que o visto para entrada no país custava U$ 20. O valor real do visto, por alguma razão mística e mágica, era de U$ 24. Os magos policiais da fronteira cambojana cobravam propina sem nenhuma cerimônia. Quem ousasse não pagar, poderia chegar a esperar três horas pela liberação do passaporte, enquanto os demais turistas que pagavam o numerário tinham o seu visto em três minutos.

Tivemos a mesma experiência ao cruzar a fronteira de Laos, mas lá fomos mais astutos: pedimos recibo pelos dólares “extra” que nos fizeram pagar. O mais incrível é que: eles nos deram! Cena dos próximos capítulos...

Na fila do visto, “pegamos buena-onda” com dois rapazes italianos que cruzavam a fronteira conosco, então decidimos alugar todos juntos um táxi até Siem Reap, a segunda cidade mais importante do Camboja, que serve de base para visitação dos templos de Angkor Wat. Nossa estada em Camboja, na verdade, se resumiu a Siem Reap e o Angkor Wat, pois o tempo não permitiu visitar mais lugares. Eu bem que teria ido às praias deles, que são lindas, mas Gaba terminou me convencendo a ir para Laos. E foi ótimo!

Segundo choque: o trânsito no Camboja é quase tão caótico quanto na Índia. A diferença é que eles andam muito de moto, levando famílias inteiras a bordo. Vimos até seis pessoas, incluindo bebês de colo, se equilibrando em cima de uma moto. Vimos também crianças pequenas, entre dois e quatro anos, andando de moto, na garupa, sem nenhuma proteção, apenas agarrados da roupa das mães, como macaquinhos.

Pouco a pouco, fomos nos dando conta que estávamos ingressando num país com um passado de grandiosidade e esplendor, porém extremamente pobre e golpeado por personagens controversos de sua história recente. O principal deles foi o famigerado Pol Pot, ou Khmer Rouge, um maoísta que, entre 1975 e 1979, foi responsável por uma das maiores chacinas do país, que vitimou nada menos que 2 milhões de cambojanos Ainda hoje é possível ver as vítimas de Pol Pot, muitos deles mutilados que fazem parte de grupos de música, e se apresentam nas entradas dos templos de Angkor.


Contraditório ver como um país que, entre os séculos VIII e XIII, no período medieval, foi o berço cultural do Sudeste Asiático, com uma cultura riquíssima e reinados que abarcavam quase toda a região e, hoje, é a nação mais pobre e golpeada entre todas as demais. Por outro lado, graças a esse passado grandioso, o Camboja tem uma das suas principais entradas de renda. O turismo que se desenvolveu em torno dos templos de Angkor é impressionante e a entrada não é nada barata. No entanto, vale a pena, sobretudo para quem tem interesse nas religiões hindu e/ou budista.

Rostos de Buda, Templo Bayon, Angkor Wat


Em grande parte dos templos, vimos lingas (símbolo fálico, que representa a fertilidade) de Shiva ao lado de Budas. De fato, depois vimos em outros lugares da Ásia que essa mistura de referências não é incomum. Alguns hindus inclusive consideram Buda uma reencarnação de Vishnu!
 Eis o Shivalinga!


O Camboja e sua terra vermelha encheram meu coração de ternura e, como tem acontecido em alguns outros lugares ao longo dessa nossa jornada pela Ásia, tive dos meus dèja vus e reencontrei pedacinhos de mim ali. Só que, ao contrário de dona Angelina, não trouxe nenhum deles comigo fisicamente, embora tenha ficado com vontade ;)


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O resumo das praias tai

Finalmente o meu resumo das praias tailandesas!


Antes de começar, vou repetir o mantra que sintetiza o que eu penso a respeito de dar dicas de lugares, seja lá para quem for: para cada viajante, uma viagem distinta. O fato de eu ter tido esta ou aquela experiência não determinará a sua, e por aí vai. Ter dicas e recomendações de lugares é sempre importante, desde que você sintonize com a pessoa que lhe informa. E, mesmo assim, haverá dessemelhanças no modo de viver a experiência, pode ter certeza disso!

Eu sou suspeita para falar de praia, pois tenho um nível de exigência bastante alto, pelo fato de haver vivido, grande parte da minha vida, em um balneário litorâneo, que é conhecido não só pela beleza, como também pela simpatia e calidez de sua gente. Portanto, para me surpreender, a praia tinha que realmente me fazer cair o queixo. E o povo do lugar também, para mim, não seria um ingrediente menor.

Não vou ser injusta com as praias tailandesas, mas me deixaram com gostinho de quero mais. Pra começar, não pude perceber o riso fácil tailandês, que todos os guias de viagem comentam. Ao contrário, senti que o sorriso, em quase todos os lugares turísticos pelos quais passei na Tailândia, era mais falso do que fácil. Tchan! Era um sorriso que sempre pedia dinheiro em troca, que solicitava muito mais do que oferecia. Essa foi a minha experiência e o único lugar onde não percebi isso foi no norte do país, na cidade budista de Chiang Mai, onde não há praia. Já falarei sobre ela :)

Por isso, a recomendação mais valiosa que posso dar, e que aponta bastante ao senso comum, é: EVITE, COM TODAS AS SUAS FORÇAS, A TEMPORADA ALTÍSSIMA OU A PEAK SEASON. Esta começa, mais ou menos, no dia 20/12 e termina, mais ou menos, no dia 20/01. Eu suponho, sem nenhum 100% de certeza, no entanto, que tomando essa precaução a sua experiência será, em grande medida, muito mais relaxada do que a nossa. Será?

E as praias em si? São deslumbrantes, realmente. E com diferenciais que já comentei antes, no meu primeiro post sobre a Tailândia: a areia da maioria delas é muito branquinha. O mar tem uma transparência e uma visibilidade impressionantes. E, claro, repito o que me parece fenomenal lá: aquelas formas rochosas que saem de dentro do mar! Por tudo isso, vale muito a pena vir conhecê-las.

Do que eu não gostei: da energia do lugar. Isso é menos tangível e é bastante pessoal, pois seguramente, outra pessoa se sentirá bem ali, com aquela mesma energia. No meu caso, me pareceu um lugar denso, com uma atmosfera de disputa, saqueio, sangue derramado. Depois, fui dar uma checada na história e vi que realmente a minha sensação coincidia com alguns fatos do passado. Ainda assim, saliento, foi uma impressão minha, não necessariamente será a sua.

Outros pontos negativos: o excesso de turistas e de vendedores, a prostituição a olhos vistos e, para a minha surpresa, o clima, que não ajudou, em grande parte do período que estivemos lá. Esse sim foi um fator totalmente fora do script, para a época! Por tudo isso, por mais beleza que haja visto ali, não consegui realmente relaxar. Preciso voltar em outra época para tirar a prova dos nove, hehe :)

Vamos ao resumo!
Kata Beach, Phuket


Linda, água limpa e verde-esmeralda, uma verdadeira piscina. Excelente para banho, para nadar, para kayak, pois quase não tem onda. Não é muito extensa, pois está localizada entre dois morros que a delimitam, mas é um pequeno paraíso, sobretudo quando há pouca gente: no fim da tarde ou de manhã bem cedinho.

Parece ser, em Phuket, um bom lugar para se hospedar, tem muitas opções de restaurantes e cafés, lugares de massagem, manicure e até aquele tratamento de peeling com peixes nas pernas e pés, que parece ser a moda neste verão na Ásia. Portanto, não espere uma vila de pescadores tranquila e deserta. Mesmo que você vá na baixa temporada, a ilha de Phuket e, mais especificamente, Kata, será sempre uma praia badalada.

Phi Phi Don, Koh Phi Phi


A Praia” deixou de ser uma prainha tranquila desde que o filme de Leonardo di Caprio estreou em Hollywood. Por mais que soubéssemos que estaria crowdeadíssima de gente, eu digo e repito que vale MUITO a pena ir até lá. Nem que você faça o passeio de lancha que fizemos, saindo e voltando no mesmo dia para Phuket, que fica mais longe. Nós só tivemos essa opção, pois foi impossível conseguir hospedagem em Koh Phi Phi, que está mais perto de Phi Phi Don, e é onde se concentram as pousadas.

A praia de Leozinho é simplesmente deslumbrante. A visão desse lugar é paradisíaca. Está meio escondida entre morros gigantes, que terminam formando uma enseada com uma imensa piscina, irresistível para o nado e snorkeling. A água tem uma visibilidade espetacular, algo que nunca vi na minha vida nas praias que frequentei no Brasil. Portanto, de tirar o chapéu. Mas, para quem viu o filme não vá ficar decepcionado: a praia é bem pequena. No filme rolaram uns efeitos especiais para aumentá-la, hehe. Se a maré está alta, quase não tem areia, sobretudo na peak season, quando lota de barcos atracados e de gente circulando. Tampouco é uma praia com infraestrutura: nenhuma pousada, apenas um ou dois barzinhos. Só se chega de lancha. É para ir, babar, tomar um delicioso banho de mar, e voltar. E mesmo ficando lá menos de 2 horas, vale muito a pena.

Koh Phi Phi


Linda, mas estava LOTADA, pior que Phuket, pois é uma ilha menor. Tem duas enseadas lindas, uma de costas para a outra, que formam um banco de areia bem estreito, em determinado ponto. No tsunami de 2004 foi uma das ilhas mais afetadas, pois a grande onda fez esse banco de areia desaparecer, varrendo tudo o que havia no meio: lojas, bares, comércio. Hoje, ao longo de toda a ilha, vimos instalados alertas anti-tsunami, que previnem a população com tempo suficiente para buscar abrigo nas partes mais altas do lugarejo.

Parece que a ilha já se recuperou bastante da catástrofe que foi o tsunami de 2004, mas o mar “comeu” boa parte da praia, então a distância entre o mar e a areia diminuiu. Mesmo assim, Koh Phi Phi vazia deve ser um paraíso, pois você passa de um lado ao outro da ilha quase num pulo, e pode curtir o mar e a visão que mais gostar. Para vir de novo, na temporada baixa, obviamente :)

Bottle Beach, Koh Phan Ghan


A ilha de Koh Phan Ghan é famosa pelas festas em homenagem à lua. Começou com a Full Moon Party, mas hoje tem festa para as demais três fases também. É um lugar com muito fluxo turístico de adolescentes de todas as idades, muita bebida, droga, música eletrônica, ou seja: perfeita pra farra. No entanto, a ilha é grande e há outras praias fora do circuito festeiro que são tranquilas e merecem uma visita para descanso.

Uma dessas praias é Bottle Beach, que foi a que escolhemos para passar o aniversário de Gaba, indicados por nosso amigo francês Mano, que conhecemos em Allepey e que é fã da Tailândia. A praia é de dificílimo acesso, por isso não rola muvuca. Como vínhamos de Phuket, estávamos desejando um lugar mais reservado e tranquilo, porém...

Do dia que chegamos até o dia que saímos não parou de chover quase nunca. Quando parou, estava nublado ou semi-nublado, hehe. O mar, nas fotos promocionais dos hotéis das redondezas, era um presépio: tranquilo, azulzinho, típico de cartão-postal. Na real, o mar estava uma presepada: sujo, talvez porque a correnteza da chuva trouxe algo de lixo de outras praias; com ondas enormes que mal dava para a gente encostar. Me senti em Amaralina que, por sinal, foi a praia da minha infância. Ou seja, mesmo assim, me diverti. Mas, convenhamos...a gente não vem para a Tailândia para repetir uma Amaralina experience, embaixo de chuva, não é verdade?

Pois bem, mais uma vez essa viagem me ensinou que quase sempre o que acaba com uma experiência é o excesso de expectativa. Estar ali, mesmo com chuva, foi legal. Eu e Gaba comemos bem, tomamos uns milk-shakes de coco deliciosos, jogamos baralho, nos divertimos e descansamos pra valer. O problema é quando vinha a pressão da mente, sabotando tudo, com aquela demanda: “putz, estou numa praia da Tailândia...jogando buraco?” Sim, e daí? Vai chorar ou vai viver a coisa como é?

Como já deu pra perceber, muitas vezes esses contratempos da viagem nos ensinam, e muito, a respeito de nós mesmos.

Sairee Beach, Koh Tao


No post anterior, já descrevi bem a experiência que foi estar nesa ilha: incrível! Mesmo com chuva nos primeiros dias, fomos presenteados com uma melhora substancial no clima, nos dois últimos dias do curso de mergulho. Sairee, em si, é uma prainha linda, massa para snorkeling, e está muito bem localizada. A principal vantagem de lá é que há quase uma escola de mergulho por esquina, portanto, super recomendável se hospedar em Sairee, pois há mais opções de resorts com cursos de mergulho.

No mais, Koh Tao tem outras lindas praias que são cartões postais da Tailândia, como Twin Rocks, onde fizemos nosso primeiro mergulho, e Mango Bay, que também é linda para snorkeling, mas que eu acabei nem indo. Para quem quer começar a mergulhar, fica a dica: é o lugar mais bem servido de escolas e profissionais e, talvez por isso mesmo, o mais barato da Tailândia e do mundo inteiro :)

Koh Lanta e Koh Lipe

Essas nós não fomos, mas nos indicaram. Parece que ambas são o pico do sossego no disputado sul da Tailândia. Ambas ilhas estão bem afastadas do circuito turistão. Também oferecem águas transparentes, areias branquinhas, e o melhor: praias quase desertas, segundo nos disseram. Ficarão para a próxima!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Koh Tao e o infinito embaixo d'água

Eu disse que ia dar um resumo das praias da Tailândia, né. Vou começar pelo fim, pois, de todas as experiências nas águas tailandesas, a de Koh Tao foi iniciática e me revelou muito a respeito de mim mesma e de um mundo que sempre tive à disposição, mas nunca me havia ocorrido explorá-lo.

Eu e Gaba, já tirando o mergulho de letra, no nosso segundo dia de prática, hehe


Aprender a mergulhar jamais esteve na minha lista de prioridades. Apesar de ter muita familiaridade com o mar, de meu bisavô ter sido pescador, nunca havia me interessado especialmente pelo mergulho. Para ser sincera, estar embaixo d'água, respirando pela boca por um tubo de oxigênio, não me parecia algo exatamente divertido!

Porém, ainda quando planejávamos a viagem e a passagem pela Tailândia, meu cunhado Fernando, que até escola de mergulho já teve, nos recomendou aproveitar a oportunidade e aprender a mergulhar em Koh Tao. De todos os points de mergulho do mundo, a Tailândia está entre os mais disputados pela diversidade de vida marinha e pela visibilidade da água. Koh Tao, mais especificamente, é uma ilha que se desenvolveu por causa da atividade e, hoje, é o lugar mais barato do mundo para aprender a mergulhar.

Portanto, para um marinheiros de primeira viagem, como éramos nós até um mês atrás, a oportunidade estava ao nosso alcance, era questão de aproveitar. Mesmo assim, eu ainda duvidava se ia desfrutar, e tinha até um certo medinho (que depois vi que se tratava de um medão), de não me adaptar e acabar engolindo água. Pois bem, muchachos: engoli água sim, mas nada que me fizesse afogar.

Compramos o pacote em um resort de mergulho, que incluía tudo: o curso, a hospedagem, o material, quatro mergulhos e a carteirinha PADI, que é uma das entidades que certifica e forma profissionais em todo mundo. No curso, éramos apenas eu, Gaba e um colega mais da Espanha, Tonny. Tivemos a orientação em espanhol de um professor nativo da Espanha, Sérgio, que foi muito paciente, sobretudo com nosso colega Tonny e com meus ensaios de pânico embaixo d'água, hehe.

Tonny, Sérgio, Gaba e eu, o quarteto subaquático


É normal sentir desconforto no início, sobretudo nas sessões de treinamento. Tem um exercício que consiste em simular a perda do regulador, que é o dispositivo que lhe permite respirar pela boca. Temos que resgatá-lo, colocar de novo na boca, apertar o botão para desobstruí-lo e voltar a respirar por ele, simples assim. Ainda na piscina, na fase de treinamento, eu mudei a ordem dos fatores e alterei completamente o produto! Engoli água, yes, e me apavorei.

Outro exercício que me fez engolir água pelo nariz foi o de desembaçar a máscara, estando embaixo d'água. Se você respira pela boca, através do tubo, embaixo d'água, vai usar o nariz pra quê? Somente para exalar, em caso de necessidade. E esta aparece justamente nesse caso, quando a máscara embaça ou quando entra água. A única forma de resolver ambos problemas é expulsar a água da máscara (e, portanto, desembaçá-la), com a ajuda do ar que sai pelo nariz, e com uma leve pressão dos dedos, que auxilia a saída da água. Pensem numa aflição? É claro que entrou água pelo meu nariz nesse exercício e eu entrei em curto-circuito! Até hoje, depois de quatro quatro mergulhos, acho que terei que repetir o exercício do desembaçamento, para me garantir, hehe.

Até aí, tudo bem. O medo mesmo veio no batismo, no meu primeiro mergulho. Um medo que eu desconhecia completamente me paralisou por uma fração de segundos, quando desinflamos o colete e eu olhei para cima. Comecei a ver a superfície se afastando e, a uns dois metros de profundidade, me dei conta que tinha, ainda, mais 6 metros pela frente para continuar descendo!

Segura na corda e respira, Val!


Percebi, então, que estava cruzando um umbral iniciático. Que desconhecia por completo a origem daquele medo. Nunca, pelo menos nessa vida, o mar me apavorou tanto! Felizmente, isso durou um curto espaço de tempo. Fechei os olhos e parei a descida, segurando na corda que ancorava o barco e que serve de guia, principalmente para os iniciantes. Respirei profundamente pela boca, já que pelo nariz era impossível. Assim, pouco a pouco, consegui amestrar o meu emocional e sair do meu mini-estado de pânico. Depois de 10 anos de Yoga, tinha que ter ferramentas à mão para sair de uma situação dessas, hehe.

O famoso Nemo, ou peixe palhaço :)


Passei no teste, cruzei o umbral...e chorei de emoção quando, recuperado o alento e o comando, pude realmente apreciar o que havia lá embaixo! Mergulhar é algo único, que amplia o espectro sensorial, sobretudo visual. É como estar dentro de um aquário gigante, mas com a mesma habilidade visual que se tem observando-o de fora. A percepção da gravidade muda e, para quem sonhou algum dia em ser astronauta, como eu, é uma espécie de ensaio de visita a um mundo desconhecido que, contraditoriamente, sempre esteve ali, mas que nunca tínhamos visto. Super recomendo! :)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

De passagem pela vida!

Esse post eu dedico à tia Luciene Fonseca, que desencarnou subitamente anteontem por causa de um AVC. E também à diva Whitney Houston, que partiu hoje deste mundo. Foto: Kata Beach, Phuket, Tailândia

É inútil buscar consolo na negação, no “que poderia ter sido se...”; quando a morte tem que vir, ela é imperativa. Eu acredito que nós construímos, ainda que de maneira inconsciente, as circunstâncias de nossa partida. Por mais que a medicina avance, por mais que sejamos cautelosos, por mais que tenhamos dinheiro, por mais que sejamos medrosos (ou melidrosos), quando chega o momento, a vida deixa de alimentar o nosso corpo físico. O que acontece depois, a experiência da vida (ou da consciência) em outra dimensão, tudo isso ainda é passível de questionamento mental. A única certeza é a do presente, estar inteiros aqui e agora. Todo o resto é especulação, até que passemos pela experiência (ou tenhamos o conhecimento da mesma por vias mais expandidas da nossa consciência)!

Me dei conta, mais uma vez, quando recebi a notícia do derrame de minha tia, antes mesmo de ser confirmada a sua morte, do quanto a viagem é uma boa metáfora para a vida. Às vezes, a gente esquece que está de passagem por esse mundo. Isso é bom, mas, no meu ponto de vista, somente quando se tem plena consciência da importância do momento presente. De estarmos totalmente entregues e de vivermos em plenitude, seja lá qual for a situação que nos seja apresentada.

Nos complicamos quando, por medo ou angústia frente à transitoriedade da vida, começamos a nos encher de entulho: físico, emocional ou mental, crendo que, de alguma forma, isso nos trará consolo. Quando nos paralisamos diante de experiências dolorosas e desaprendemos a soltar o que não nos serve. Quando já nem sabemos distinguir aquilo que obstrui a plenitude em nossa existência. E, diante de tanta confusão, começamos a dar protagonismo e responsabilidades a seres e/ou acontecimentos, que são apenas contingências criadas por nossa sombra sabotadora que, ao mesmo tempo, é a nossa redenção. Porque, através do incômodo da angústia, a nossa sombra nos mostra o nosso sintoma, o fio de ouro que nos guia rumo à saída do labirinto.

Nessa viagem, pelo menos para mim, a experiência do tempo e do espaço tem se elastizado brutalmente. De tal forma que, cada dia, cada acontecimento resume, muitas vezes, um ciclo de aprendizado inteiro, que, talvez, durasse meses ou anos no cotidiano ordinário, digamos assim. A experiência de viajar me aproxima da morte, de me saber transitória neste mundo, de maneira que tenho, como poucas vezes tive, a percepção do quanto o medo é inútil. O medo é uma mochila pesada, cheia de futilidades, coisas que eu não uso e nem vou usar, mas que, mesmo sabendo disso, não posso soltá-la.

By the way... tenho que reconhecer também que, como nunca antes, aprendi a viver com o mínimo necessário, estando de viagem por tanto tempo! Qualquer peso extra, um souvenir ou um livro, uma roupa a mais que seja, que eu use pouco, se transforma num fardo quando tenho que caminhar com isso nas costas por tanto tempo!

Como cada experiência é única, não posso recomendar a ninguém viver a mesma viagem, nem o mesmo itinerário, pois eu já me dei conta que dois viajantes, mesmo que façam a mesma viagem, ela nunca será a mesma. Porém, assim como tenho feito um enorme esforço para me livrar do famigerado excesso de bagagem durante essa minha viagem de quatro meses, convido a você que está lendo essas palavras, a olhar para a sua mochila, assim como tenho olhado sinceramente para a minha, e a medir (ou pedir ajuda, se for o caso) o seu entulho, o seu excesso de bagagem. Acredite: nem eu nem você precisamos dele.

OM Shanti!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Tailândia e chuva, casamento da viúva!

Eu admito que tenho demorado em postar quase tanto quanto eu e Gaba temos tardado em montar o nosso roteiro pelo sudeste asiático que, de fato, já está chegando ao fim, cronologicamente falando. Ao contrário da Índia, que foi o leitmotiv desta nossa viagem, a voltinha que estamos dando pelos demais países da Ásia tem sido bastante desestruturada, e, de certa forma, vem sendo guiada por nossos humores e acontecimentos. Isso seria genial como experiência, não fosse pela bendita temporada alta, que vem nos perseguindo desde a semana do Natal, quando ainda estávamos na Índia.

Eu precisava desabafar isso aqui antes de prosseguir com os posts. Estava necessitando elaborar um pouco mais os últimos eventos e ter algum distanciamento histórico, antes de continuar com os relatos. Pois bem, sigamos, hehe!

Chegamos na Tailândia! Um voo bem rapidinho de Singapura nos levou à famosa Phuket, no sul muçulmano do país. Para quem não sabe, embora a Tailândia seja famosa por ser um país predominantemente budista, o sul do país é dominado pelos muçulmanos, muitos deles malaios ou descendentes de malaios.

Ah, tinha que fazer outro comentário: nunca entendi porque uma loja brasileira de meias leva esse nome, Phuket. Talvez pela sonoridade. O fato é que no sul da Tailândia é verão quase o ano inteiro. Meias: pra-quê-te-quero? Mas, tudo bem. A loja prosperou, talvez seguindo o exemplo do paraíso tailandês.

Tailândia do alto. De outro mundo!

Sim, a Tailândia tem uma exuberância de fazer o queixo cair. Não dá pra negar a beleza desse lugar. Ainda no avião, pude perceber isso, e me senti de viagem à outro planeta, quando vi aquelas montanhas, de cor verde esmeralda, brotarem de um mar transparente. Esse, aliás, é o diferencial das praias daqui: a combinação espetacular de águas muito claras, num tom meio verde-azulado, areias brancas como neve, montanhas verdes, de formas estranhíssimas, algumas parecendo estalagmites que nascem de dentro do mar, e uma vegetação selvagem, algo muito particular.

No tempo dos vikings que, para minha surpresa, também andaram disputando essas areias, talvez fosse possível encontrar praias desertas, totalmente selvagens. Hoje em dia, isso é quase impossível! Encontrar um pedaço de chão desocupado é quase como acertar num bingo disputado de quermesse. Nesse aspecto, eu fui sortuda: ganhei no bingo! Consegui, através de um amigo que fizemos na Índia, que conhece muito bem a Tailândia, encontrar uma areia pra chamar de minha. Porém, quase não foi possível aproveitá-la porque estava... chovendo! Pô, São Pedro, até tu? :(.

Cova dos vikings, próximo a Koh Phi Phi

Acreditem: no alto do alto da alta temporada, eu só pude, em quase 15 dias de praia, ver o sol sair, sem absolutamente nenhuma nuvem, em apenas uns cinco dias. Nos demais, ou chovia, ou estava nublado, ou parcialmente. Não me chamem de pé frio! A culpa é do aquecimento global. O fato é que, ainda no avião, enquanto contemplava toda a beleza do lugar, pude observar umas nuvenzinhas cobrindo boa parte da paisagem, e isso me chamou a atenção. Ué, não é que aqui só chove em julho, agosto? Necas de pitibiriba!

Na verdade, não foi só São Pedro que me deixou meio descolocada na minha temporada praieira tai. Estava muito mal-acostumada com a receptividade, a calidez, o sorriso sincero e amigável do povo do sul da Índia. Tão mal acostumada e com a guarda tão aberta, que não consegui conectar com a agressividade mascarada que percebi no sul da Tailândia. A energia no sul muçulmano tailandês é de disputa, de embate, em quase todos os lugares de praia que passamos. Não pude vivenciar o famoso sorriso fácil tailandês, ao contrário. Senti que, pelo menos no sul, a amabilidade vinha sempre com segundas intenções.

O turismo sexual foi algo que sempre soube, mas vê-lo foi muito mais chocante do que sabê-lo. Sim, vi meninas, muitas seguramente menores de idade, fazendo cara de “não aguento mais”, de mãos dadas com gringos bufões, nojentos. As menores não eram a maioria, mas havia.

O Governo da Tailândia, pelo que pudemos perceber, tem tentado impor limites, pedindo visto para turistas de alguns países europeus, e encurtando a visita dos mesmos. Os alemães, por exemplo, somente podem permanecer no país por 15 dias, segundo nos contou uma alemã que conhecemos na Índia. Mesmo assim, o governo tai não parece fazer muito esforço para fiscalizar as praias do sul, nem está muito em dia com os direitos da mulher. Definitivamente a prioridade é outra: o turismo!

Kata Beach, Phuket. Num dos raros dias totalmente ensolarados que vi por aqui

Curiosidade: na Tailândia você pode falar mal de Deus, da torcida do Bahia e, talvez, até de Buda, menos do rei. Sim, eles têm um reinado! E o rei é autoridade absoluta. Fale mal do rei e você vai direto para o xilindró. Também é considerado um grande insulto pisar no dinhero daqui, pois, na cédula, está impressa a cara do rei. Pois é. Em Roma, como os romanos!

No próximo post farei um resumo das praias e contarei um pouco da incrível experiência que foi mergulhar pela primeira vez na vida, em águas tailandesas!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Our Singapore experience: luz e sombra do diamante da Ásia

Este post eu dedico à Santi, nosso querido amigo que nos hospedou no diamante do sudeste asiático e também nos fez sentir em casa. Gracias, Santi :)

Partimos de Chennai para Kuala Lumpur, no dia 4 de janeiro. Não posso falar grandes coisas da capital da Malásia, apenas do aeroporto, que foi onde, pela primeira vez, depois de um mês na Índia, pude colocar uma camisetinha de alça. Isso foi um grande alívio! Pude perceber que se trata de um lugar com bastante influência muçulmana, pois vimos muitas mulheres, de traços asiáticos, usando véu. No entanto, ao contrário da Índia, nenhuma delas se choca ao ver uma mulher com os ombros ou as pernas de fora. No aeroporto, já se percebia que estão muito mais acostumados com a vestimenta ocidental. De fato, depois vimos, em outros lugares do sudeste asiático, que a roupa usada pelas mulheres não difere tanto da que se usa no Brasil, sobretudo em lugares tropicais.

De Kuala Lumpur, tomamos outro voo para Singapura, onde combinamos com nosso amigo Santi de passar uns dias na casa dele. Se nota que, nesta parte da viagem, tomamos um descanso de guest houses e pousadas, graças aos nossos amigos espalhados pelo mundo! Numa jornada de quatro meses, ter um lugar familiar para ficar, de vez em quando, é mais que recomendável: é fundamental.

Nós com Santi, nosso amigo mexicano que já morou no mundo inteiro, inclusive em Buenos Aires

Santi não é santo, mas fez as vezes de nosso anjo-da-guarda em Singapura. Nos ofereceu a cama dele, que era de casal, e foi dormir no quarto de hóspedes. Nos deu algumas dicas de lugares a conhecer na cidade, nos levou para passear na night singaporense e ainda nos ofereceu consultoria para a compra do meu primeiro celular andróide. Singapura é famosa na Ásia pelos shoppings de eletrônicos. Antes era o lugar, junto com Taiwan, onde grande parte dos aparelhos era fabricada ou montada, mas há um tempinho perdeu o posto para a China, obviamente.

Para descrever Singapura, só mesmo me rementendo à sua história, pois é um lugar muuuuito particular dentro da Ásia. Singapura é uma cidade-Estado, uma pequena ilha tropical, localizada a uns poucos graus acima da linha do Equador, só que na banda asiática do planeta. A ilha, ironicamente, tem forma de diamante, o que coincide, de certa maneira, com o karma do lugar. Há pouco mais de 40 anos, o país era uma colônia de pescadores, um pântano subdesenvolvido, cheio de problemas, como os demais países das redondezas. A população era formada majoritariamente por povos indígenas e, de fato, no porto há um monumento que se remete a essa origem.

O povo originário de Singapura, em uma escultura no centro comercial da cidade


Singapura foi colônia inglesa durante um tempo, e, por ser um porto bastante bem localizado, se transformou no principal ponto de apoio, dentro do sudeste asiático, da Cia das Índias Ocidentais, famosa por varrer as riquezas da Índia e, consequentemente, ter sido uma das patrocinadoras da revolução Industrial na Inglaterra.

O fato é que depois da Segunda Guerra Mundial, Singapura, que fazia parte da Malásia, se tornou independente, graças a uma manobra política articulada por Lee Kuan Yew, um estrategista altamente hábil que, entre 1959 e os anos atuais, transformou o pântano cheio de problemas, que costumava ser a Singapura, em um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo, com índices sociais elevadíssimos e corrupção praticamente nula, pero...

Rai-ai. Nessa vida, tudo tem seu preço. Para que o país se transformasse tão rapidamente assim, foi necessário um acelerador evolutivo chamado: regime semi-ditatorial. A repressão em Singapura é diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento do lugar, e um estrangeiro se dá conta disso antes mesmo de chegar. O formulário de entrada tem um aviso, em letras garrafais, que a entrada com drogas na Singapura é punida, nada mais, nada menos, com a pena de morte!
O símbolo de Singapura: a roda gigante (ou seria do karma?)


O interessante é que eu e Gaba devemos ter, muito provavelmente, um guia espiritual que gosta de nos mostrar, ainda que sutilmente, o lado B de tudo que andamos vendo por estas bandas. A sombra do diamante do sudeste asiático, oculta, talvez, para a maioria dos turistas, foi se mostrar para quem? Senhor Shiva e Dona Kali não brincam em serviço. Se o que queríamos era autoconhecimento no nosso menu, nossos chefs nos têm servido disso em abundância. Voilá! Tudo que está fora é igual a tudo que está dentro...

Eu e Gaba, posando em um dos cartões-postais do país diamantino

Um primeira amostra de visão panorâmica da sombra de Singapura se deu num shopping de eletrônicos, onde fazíamos uma pesquisa de preços para comprar uma câmera digital. Estávamos num café, acessando internet e, de repente, começamos a escutar uns gritos. Olhamos para trás, os gritos vinham de uma joalheria próxima à cafeteria. Havia uma senhora com traços asiáticos, muito bem vestida, que gritava pedindo socorro, em vários idiomas. Ela estava sendo imobilizada e algemada por nada menos que três policiais, que só faltaram amordaçá-la, para que não chamasse a atenção dos demais consumidores. Enquanto isso, um quarto policial se encarregava de mandar os transeuntes se afastarem do local, e ainda pedia que evitássemos olhar a cena!

Pouquíssimos minutos depois, deram um jeito de deixar o local rapidamente, por uma das saídas de emergência, e tudo voltou a ser como antes, no quartel de Abrantes. As caras dos vendedores da joalheria era de paisagem. Os transeuntes e demais funcionários do lugar se portavam simplesmente como se nada tivesse acontecido.

Cena dois: estávamos nesse mesmo café (no mesmo dia!) e um senhor se aproximou. Se notava que era um popular, seguramente descendente dos antigos habitantes do diamante, pois parecia um índio do amazonas. Veio com um olhar manso e risonho, não sei se para oferecer algo, jamais saberemos. Apenas escutamos uma palavra dele: “hello!”. Foi o suficiente para um guardinha aparecer, do nada, e mandar o senhor tocar violão na rua do balão.

Cena três: estávamos no metrô, que, na Singapura, é à prova de suicídio! Há umas portas de segurança na estação, que separa os passageiros dos trilhos, que só se abrem quando o metrô pára. Impossível ser atropelado por um metrô na Singapura. Enfim, era proibido beber água (eu disse beber água! Fumar, nem mesmo nas ruas da cidade!) dentro da estação de metrô. Uma vez que você passa pela "borboleta" que dá acesso aos trens, não pode consumir líquidos nem sólidos.

Eu esperando o metrô à prova de suicídio, depois do guardinha me dar um carão por causa de uma garrafinha de água


Ah, bom, mas eu não sabia. Foi só eu tirar a garrafinha da mochila que, imediatamente (não sei como eles conseguem vir tão rápido!), apareceu um guardinha para me dar o pito, mandando guardar a água imediatamente, com uma autoridade imperativa e veloz que poucas vezes pude presenciar no Brasil.

A Singapura é uma República Parlamentarista e democrática, supostamente. Porém, segundo Santi nos comentou, o voto não é secreto. Consequentemente, o mesmo partido político vem ganhando as eleições desde que a "democracia" foi instaurada. E, segundo a wikipédia nos informou, os membros dos partidos de oposição são nada sutilmente perseguidos, entonces...vai encarar?

Apesar de toda a sombra, também pudemos ver a luz do diamante do sudeste asiático em vários momentos: no urbanismo inspirado no feng shui (sim, até os apartamentos da COAB singapurense são chiquérrimos, super ventilados e pensados para que a energia da casa flua. Acreditem, pois eu fiquei hospedada em um deles); nas ruas limpas, com passeios espaçosos, praças e ambientes públicos pensados para que o pedestre desfrute da cidade; na segurança absoluta nas ruas do país; no sistema de transporte urbano, barato, que funciona. E tantas outras luzes inspiradoras.

O exemplo de Singapura nos mostra que, um país tropical pode ser pensado para que funcione bem, sem corrupção, sem esculhambação. Sim, podemos seguir o bom exemplo deles, sem levar de brinde a ultra-repressão que esta incluída no pacote. Como, pai? Talvez nos leve mais tempo chegar a esse nível de desenvolvimento, contando com apenas com a abertura de consciência para a cidadania, mas eu prefiro, sinceramente, transmutar as nossas mazelas paulatinamente, ao som da marcha lenta, do que reprimi-las. Já sabemos do que uma sombra oculta e reprimida é capaz de fazer por um país.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Chennai: nossa despedida amorosa do sul da Índia

Este post é dedicado à Anil e família, e à minha ex-colega da Faculdade de Jornalismo, Ana Paula Guedes. Paulete: nem você teria noção de que aquele nosso encontro, na saída do Ilê, renderia essa história, hehe :)

Depois da tempestade, vem a calmaria. Para minha sorte e a de Gaba, pudemos vivenciar a verdade do velho ditado supracitado! Saímos de Pondicherry no último dia de 2011, chocados com o estrago que o ciclone Thane (teve até nome) causou na cidade e suas redondezas. No ônibus rumo a Chennai, pudemos perceber o alcance do dito-cujo: realmente foram um bons quilômetros de extensão. Soube, há pouco tempo, via Mari, a aurovileana brasileira que comentei no post anterior, que somente no dia 16 de janeiro se restabeleceram por completo os serviços da cidade. Que loucura!

O fato é que Chennai nos recebeu de portas e corações abertos, e foi o lugar onde tivemos uma experiência de estar em família na Índia, graças ao nosso amigo Anil, um jornalista estadunidense, filho de um indiano com uma judia.

Nós com Anil :)


Anil é um capítulo à parte, não só pela mescla de sua origem, mas também pelas coincidências (ou causalidades) da vida que proporcionaram nossos encontros. Eu o conheci na saída do bloco afro Ilê Ayê, no carnaval de 2009, em Salvador. Fomos apresentados por minha querida ex-colega da Facom, Ana Paula Guedes, justo quando ele estava prestes a se mudar a trabalho para Buenos Aires.

Uma vez já instalado na capital portenha, nos tornamos amigos. Eu e Gaba inclusive conhecemos a mãe dele e um pouco da história de suas origens. Porém, Anil terminou a sua temporada em Buenos Aires no fim de 2009, e voltou para os EUA. Não o vimos mais desde então, e foi uma feliz surpresa reencontrá-lo na Índia.

Graças à Mark Zuckeberg e seu Facebook, Anil ficou sabendo pelas fotos que estávamos circulando pelo sul da Índia, e nos avisou que estaria lá poucos dias depois. Conseguimos combinar um encontro e marcamos para passar o reveillon juntos. Ele, muito gentilmente, e com o aval da família, decidiu nos hospedar por uma noite, mas a empatia e a fluidez dos acontecimentos posteriores foram tantas, que terminamos ficando quatro dias!

Conhecemos Mala, a tia de Anil, uma exímia cantora de música clássica hindu. Tivemos uma jam sesion exclusiva, que foi incrível, e ficamos sabendo que ela participou, como intérprete, de um dos discos ao vivo do músico Ravi Shankar. Um arraso!

Também ficamos sabendo um pouco mais da história da família e nos surpreendemos ao nos inteirar que o avô de Anil havia sido satyagrahin, e trabalhou com Gandhi, lado a lado, para articular a revolução pacífica que libertou Bharat (Índia) do colonialismo inglês. Além disso, esteve na linha de frente na construção dos pilares da República da Índia, depois do assassinato de Gandhi.

Pois foi essa família incrível que nos recebeu tão bem, e nos fez sentir em casa, realmente, na Índia. Nos recuperamos do susto do ciclone com muita comida caseira, deliciosa, diga-se de passagem, que só se pode provar num lar autenticamente indiano. Tivemos intercâmbios de idéias interessantíssimos com o pai, a tia e os primos de Anil.

Foto da família reunida com convidados: eu, Gaba e um casal de amigos deles, médicos homeopatas, com os filhos

Crianças fofas e talentosas, deram um show, cada um na sua especialidade: a menina, Divya, cantou música folclórica de Karnataka (lindo!) e os meninos, Shubanka e Bharat, tocaram teclado

Tivemos ainda o privilégio de sermos apresentados, através da tia Mala e de Prátima, prima de Anil, a uma técnica de meditação chamada Sahaj Marga, uma modalidade de Raja Yoga de um mestre de Chennai. Os dias que nos restavam na cidade, que eram 3, até a nossa partida para Kuala Lumpur, na Malásia, estivemos fazendo a iniciação na técnica, que realmente teve o grande mérito de abrir a nossa percepção para uma maneira muito mais orgânica de meditar, segundo as nossas experiências e pontos de vista.

Salão de meditação do Shri Ram Chandra Mission

Nesses dias, não paramos de ouvir a frase: uau, vocês são sortudos! Tantas vezes ouvimos isso, que se tornou um mantra. Realmente, depois do choque que foi o ciclone de Pondicherry, tivemos muita sorte na nossa experiência em Chennai. Foi um verdadeiro mimo para nossa alma, uma despedida à altura de todas as experiências maravilhosas que tivemos na ronda que fizemos pelo sul da Índia ! Thank you Anil, Mala, Prátima, Veeren, Shubanka, you're our family in India! :)