quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Nas montanhas de Karnataka

Madikeri foi o nosso destino depois da passagem rápida por Hassan. Queríamos um pouco de natureza e o alívio do calor que a montanha dá, mas, de fato, o nosso principal interesse era fazer uma visita ao assentamento tibetano-budista localizado em Bylakuppe, vilarejo próximo à cidade.


O município fica nas montanhas de Karnataka, não muito distante do mar, mas suficientemente recolhido para ter sido eleito primeiro pelos Kodavas e, mais tarde, pelos tibetanos como refúgio.

Você deve estar se perguntando quem são os Kodavas; eu também me perguntei, pois nunca havia ouvido falar deles até chegar aqui e ter alguma informação na guia Lonely Planet. De fato, nós ficamos hospedados na pousada de uma família coorg. Por isso, esse post será dedicado a eles, no próximo falarei sobre os tibetanos.

Kodavas ou Coorgs, supostamente, são descendentes de persas, curdos ou gregos que integraram o exército de Alexandre Magno! Pois é “O Grande” planejou conquistar a Índia, mas foi barrado pelos acidentes geográficos, entre outras dificuldades dadas principalmente pela distância. Portanto, aqueles guerreiros desgarrados que vieram até aqui, escolheram as montanhas de Karnataka para estabelecer-se, montarem suas famílias e mantiveram sua cultura e costumes de certa forma preservados da mesma forma que os judeus fizeram: estabelecendo-se em clãs e reproduzindo-se entre eles.


Ao que parece, os coorgs não professam uma religião específica e, embora, a guia informe que são muçulmanos, a família dona da pousada onde ficamos tinha uma simpatia pelo hinduísmo, apesar de que não eram vegetarianos. Eles têm um dialeto próprio, e muitos deles nem sequer falam a língua do estado, kannada.

O maior atrativo da pousada que ficamos, segundo a guia, costumava ser o dono, Anoop, um guia de caminhadas super comprometido com o meio-ambiente e pioneiro no trekking naquelas bandas. Entretanto, há três anos Anoop sofreu um acidente de moto quase mortal, que o deixou em coma por vários meses e comprometeu bastante a sua memória e algumas habilidades motrizes. Nós só soubemos disso porque os demais membros da família insistiram em contar a história. Não fosse por isso, não notaríamos, pois ele já está bastante recuperado.

Como está sem poder levar os grupos nas trilhas, Anoop nos indicou Pradam, um muchacho de 20 anos, super ligeirinho, que nos guiou em um trekking de 13 Km, e contou um pouco mais da história de Anoop antes do acidente, além de algumas particularidades da cultura dos coorgs. Por exemplo, nos contou que, apesar de não seguirem uma religião específica, eles adoram aos seus ancestrais. E que os jovens, tanto os homens quanto as mulheres, podem ter experiências amorosas antes do casamento, o que nos deixou surpresos. Na foto, Pradam, com sementes verdes de cardamomo na mão.

Pradam nos levou a conhecer as plantações de cardamomo, chá ee café nas montanhas de Madikeri. Subimos algumas pirambeiras generosas (ai, minhas canelas!), conhecemos uma família coorg que vivia completamente isolada e atuo-suficiente, que somente falava em dialeto, e que nos ofereceu um café roots, colhido lá mesmo por eles.


Lá conhecemos um velhinho gênio, de 95 anos, super ativo, patriarca de outra família de coorgs que só falava em dialeto. Quando chegamos, ele estava jogando bola embaixo do sol, com uma criança que, talvez, fosse seu bisneto o tataraneto. Subia a colina todos os dias para ver a vista do vale lá de cima (mais incrível que a vista do vale, para mim, era a disposição desse velho). Fez questão de nos mostrar os dentes, todos originais, hehe. E brincou conosco, dançando e mostrando como estava bem de saúde. E ainda fumou um cigarrinho, tirando onda! Sem falar uma palavra de inglês, nos comunicou muito.


Naquele momento, no alto daquela montanha, observando esse senhor, me dei conta, mais uma vez, do pouco que se precisa para ter uma vida plena, longa e feliz. Do quanto o ser humano complica a própria vida, desnecessariamente. Do quando as cidades neurotizam e enfermam as pessoas. Esse senhor era um yogin, embora não soubesse que era isso o que praticava.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Belur, Halebidu and Merry Christma's

Vou abrir um breve parêntesis aqui, em homenagem à minha querida bróder de lanches e trabalhos em equipe na nossa pré-adolescência no Isba, Mariele: sim, é possível ficar em lugares limpinhos e decentes na Índia sem pagar preço de Maharaja. Não existe apenas a opção de desembolsar o mínimo de U$ 100 por dia de hospedagem, como algumas pessoas pensam, para ter um mínimo de higiene e conforto. Eu e Gaba estamos aqui pra provar que com um terço ou um quarto disso se pode conseguir algo legal.

As únicas exceções, até agora, foram Hassan e Mangalore, que, coincidência ou não, eram lugares de passagem. Os hotéis em ambos ficaram abaixo dos demais em vários itens, mas como a gente ficou lá por pouco tempo, não chegou a traumatizar.

Por outro lado, fazendo a conversão de rúpias para reais...em geral, as diárias dos quartos de casal nos lodges/pousadas/hotéis que ficamos estão custando um pouco menos que a diária individual num quarto coletivo de albergue no Brasil! Bom, nenhuma delas inclui café-da-manhã (aí já seria demais). Ocorre que, quando se faz uma viagem por tanto tempo como a nossa (quatro meses!), e se queremos ir a tantos lugares, não dá para ficar convertendo o tempo inteiro porque, senão, vamos parar na bancarrota, haha. A menos que você seja um Maharaja de verdade, ah, bom. Aí realmente são outros 500 :)

Enfim, o nosso hotel com cheirinho de mofo em Hassan tinha móveis velhos, era escuro, mas as roupas de cama eram limpinhas, hehe. Pois é, Mari, isso eu não negocio. Aliás, sempre se pode (e se deve) ver o quarto antes de pagar.

A vantagem de ficar em Hassan, como eu disse, é que está muito próxima dos templos de Belur e Halebid, que, sim vale a pena visitar. Ambos têm um trabalho fantástico de escultura que, no caso de Belur, tardou nada menos que um século em ser concluído. Nós fomos primeiro a Halebidu e depois a Belur, mas, o que mais nos impressionou, em termos de trabalho de escultura sobre pedra, foi o segundo. Abaixo, foto com detalhes da escultura do templo de Belur, feita com perfeição em 3D.

Tanto Belur quanto Halebidu são relíquias da Idade Média, não tão antigas assim. Em ambas se nota que a mulher tinha outro papel na sociedade, pois estão representadas quase sempre dançando, tocando instrumentos, com uma vida social, artística e sexual muito intensa. Quase todas aparecem semi-desnudas, assim como os homens. O clima do lugar pede, por Dios. A falta de roupa, entretanto, cede lugar aos adornos, inclusive nos seios. Por falar nos enfeites, haja colares, pulseiras, anéis, inclusive no dedo médio do pé, e tornozeleiras nas estátuas. Talvez os adornos sejam uma das poucas heranças daquela época que as indianas prezam até hoje. Detalhes dos templos de Halebidu nas fotos abaixo.

As mulheres de hoje estão supervestidas, não importa o clima, não importa aonde. Seja na praia, na montanha, no deserto ou numa casinha de sapê, a esmagadora maioria usa sari ou kurta (espécie de blusão com uma calça folgadinha por baixo, com um chale atravesando o peito). Se o calor for insuportável, usa-se a mesma quantidade de pano que se estiverem enfrentando o frio dos Himalayas. Talvez o que mude seja a espessura do tecido.

Observo que as mulheres daqui, além de se vestirem demais, em geral têm uma atitude corporal submissa e oprimida. Muitas andam encolhidas, se escondem. As que são casadas raramente demonstram publicamente afeto, apenas se este for dirigido às crianças. E são justamente os pequenos os que têm direito a andar como querem, peladinhos. Não usam nem fralda, seja menino ou menina, pelo menos até onde observei. No máximo, uma blusinha. As meninas, pré-adolescentes, ainda não tão formatadas, deixam escapar algo de sensualidade e picardia, coisa muito rara.

Enfim: aonde foram parar aquelas mulheres sensuais, participativas nos movimentos artísticos e liberadas sexualmente que aparecem retratadas nos templos de Belur e Halebidu? Reencarnaram na outra banda da Terra; muitas no Brasil, talvez. O mais curioso é que, justamente enquanto o ocidente enfrentava um dos períodos de maior repressão e escuridão da História, a Índia vivia o nascimento do Tantra! Isso é realmente muito louco. Se existiu uma ou mais sociedades de organização matriarcal na Índia ou em outras partes do globo antes disso (seguramente existiram), nenhuma delas, pelo menos que se conheça, deixou o legado de escrituras filosóficas e culturais que o movimento tântrico, que surgiu aqui, na Idade Média, deixou. Detalhes de esculturas sensuais em Halebidu.

Dentro do templo de Belur, em frente a um dos altares, havia um círculo de pedra que a rainha da dinastia dos Hoysalas, que governaram aquela região durante o período em que ambos templos foram construídos, dançava para as deidades. Do lado de fora, é possível, inclusive, ver algumas esculturas de casais em poses sensuais, bem parecidas com as do templo de Khajuraho, conhecido como o templo do "Kama-Sutra". Aliás, no sul da Índia, pode-se dizer que as esculturas de Belur e Halebidu rivalizam com as de lá, com a diferença que, aqui, não são monotemáticas: há também representações dedicadas aos deuses hindus e também para as manifestações culturais e costumes da época. Não há uma escultura que seja exatamente igual a outra. É impressionante.

Então, é Natal (nãããão! Quando eu lembro do Brasil e penso que as lojas devem estar colocando essa versão de Simone no repeat, me dá um alívio estar aqui, hehe)! No momento, estamos em uma praia maravilhosa e relaxada chamada Varkala, uma espécie de "ilha" ou "bolha" européia no sul da Índia, no adorável e tropical estado de Kerala. Estivemos aqui quatro dias, descansando para seguir com o nosso itinerário. Já contarei sobre nossa lagartixagem aqui em Kerala, ô lugar que me faz lembrar o litoral do nordeste, hehe. Amanhã, na noite de Natal, estaremos em cima de um trem rumando para Madurai, uma cidade que abriga templos fantásticos, já no Estado de Tamil Nadu. Assim que provavelmente só postarei do dia 25 em diante, portanto:

Feliz Natal para todos, Namaste! :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Hassan-Hassan-Hassan-Hassan-Hassan

Na nossa relaxada estada em Hampi teve até capítulo de despedida, com direito aos hinos da Índia e do Estado de Karnataka, cantados em hindi e em Kannada, língua oficial. Para quem não sabe, a Índia possui 8 línguas oficiais, fora os dialetos. Enquanto esperava o autorocickshaw que nos levou ao ponto de saída do nosso busú para Bangalore, fiz amizade com duas menininhas, sobrinhas dos donos da pousada, que deram um verdadeiro show exclusivo para mim, inclusive de dança indiana. Fofas! Além disso, a dona da pousada, Svarna, me batizou com um nome em hindi, o mesmo da sua filhinha: Kushi, que significa felicidade. Na foto: eu, Svarna e minha xará, Kushi.

Pegamos um busu leito, com cama e tudo, que nos deixou em Bangalore para, de lá ir até Hassan, cidade que fica próxima aos templos de Belur e Halebid, nosso objetivo. Já deu para perceber que nem todos os lugares contam com trasporte direto aqui, o que acaba por tornar um simples deslocamento em uma jornada pra lá de cansativa. Mas tudo bem, a gente programou nossa viagem contando com esse tempo e essa disposição. Do contrário, há que pagar muitíssimo mais caro por um motorista particular que lhe leve, de táxi, aos destinos à sua escolha. E nem sempre isso é garantia de chegar antes, pois grande parte das estradas aqui estão em péssimo estado. Pode-se tranquilamente tardar 4 horas para rodar apenas 150 km! Além do mais, nem sempre é mais confortável ou seguro viajar com um motorista particular, e se perde muito em termos de aprendizado.

Quando entrei no ônibus, tomei um susto: eu nunca tinha visto um leito assim. Em vez de cadeiras, tinha cabines, de um lado e do outro, com beliches, como no trem que tomamos de Mumbai a Guntakal. Todos os passageiros viajam deitados, não há cadeiras. Realmente funciona como uma cama e é ideal para viajar de noite, sobretudo se você está cansado e consegue abstrair a forma nonsense (pelo menos segundo o nosso ponto de vista ocidental) que os motoristas de ônibus na Índia costumam dirigir. Porém, uma vez na chuva, a gente tem que se molhar. Segura na mão de Deus, e vai! Como eu felizmente não tenho nenhum problema para dormir, só acordei quando chegamos a Bangalore.

Chegamos às 5:30 da matina e, de lá, tomamos outro busu para Hassan-Hassan-Hassan-Hassan-Hassan. Essa repetição é uma piada interna: eu e Gaba não gravamos no momento, mas ele está a ponto de fazer um rap com essa palavra. Na rodoviária, os cobradores anunciam os destinos dos ônibus de forma repetitiva e exaustiva, aos berros, de uma maneira muito peculiar. Aguardem soundtrack :)

Mesmo com tanta poesia, se alguém que está lendo estas linhas planeja um roteiro similar ao nosso, evite Hassan. Vá direto se hospedar em Belur, que tem melhor estrutura de hospedagem que Halebid. Ou então, escolha Mysore como ponto de apoio para conhecer os templos. Fora a feirinha, que é bem pitoresca (a de Mysore é bem maior e mais interessante), e a comida do restaurante Suvarna, Hassan não tem muito para ver. Mesmo assim, a gente se divertiu. Segue fotos da feirinha de lá.


Hassan uma cidade bem ruidosa, poluída, nem muito pequena, nem muito grande, e a hospedaria que ficamos lá, recomendada pela Lonely Planet, é bastante caidinha, com aquele típico cheiro de carpete úmido que senti na chegada em Mumbai. Eu não sou o que se pode chamar de mulher fresca, mas, sinceramente, deu nojinho. Com um pouco de água e sabão se podem fazer maravilhas, em qualquer lugar do mundo. Parece que aqui na Índia, sobretudo nas cidades de passagem, as pousadas não fazem muita questão de se deter no quesito limpeza...

Em compensação, foi na antiga rodoviária de Hassan que provei o meu primeiro (e talvez mais gostoso até aqui) Masala Dosa, hummm...é super típico no sul da Índia comer um dosa no café-da-manhã ou na janta, sempre com um chai, óbvio. Um vício!

Pois bem, mas além de desrecomendar Hassan, esse post tinha outro objetivo: falar dos templos de Belur e Halebid. Porém, vou deixar para o próximo, pois acho que vale a pena um texto dedicado somente àquelas esculturas e o que elas representam, inclusive em termos de desrepressão e liberação, sobretudo para a mulher, se compararmos com o tempo histórico no qual a maioria parece viver aqui na Índia: uma espécie de Idade Média tardia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Planeta dos Macacos

Antes de contar um pouco a respeito das incríveis esculturas de Belur e Halebid (ou Halebidu), vou continuar falando mais um bocadinho de Hampi (se nota que eu gostei do lugar, hehe). Os demais templos que vimos lá foram o de Hannuman, o deus macaco, e o de Lakshmi, a deusa da prosperidade e da fortuna.

Vou falar aqui do primeiro, porque a experiência foi mais pitoresca. Para chegar ao templo de Hannuman, há que subir uma escadaria com uma centenas de degraus, uma canseira, mas que vale muito a pena, porque a vista de lá de cima é espetacular. Além disso, a principal atração do Monte Santo da Índia (lá vem eu com minhas referências nordestinas, hehe), além do templo lá no topo, são os macacos. Macacos? Pois é, coincidência ou não, a montanha de Hannuman é povoada deles.

No pé da escadaria, havia umas vendinhas de água-de-coco e banana. Gaba, ingênuo, queria comprá-las para ele, pois eram nanicas, com um aspecto delicioso. O senhorzinho que as vendia disse logo: leve umas 20, para os macacos. E Gaba terminou levando dez, dizendo que ia comer a metade. Rai-ai. Alguns metros depois, descobrimos o porquê de levar bananas para a subida.

Os macacos, ao verem alguém com um saco na mão, avançam sem piedade. Mais vale que você leve algumas bananinhas para eles, mas segure bem o saco, pois os bichinhos são capazes de qualquer artimanha, inclusive confiscar pertences dos desavisados-botando-os-bofes-pra-fora-no-meio-daquela-subida-que-não-acaba-nunca, em troca de comida. De fato, isso aconteceu com um turista que subiu depois da gente: um macaco safadinho roubou o estojo da máquina fotográfica dele, que tinha a chave da moto dentro! Tudo isso porque o cidadão não levou as benditas bananas. Não sei como ele fez pra voltar pra casa. Portanto, a oferenda a Hannuman não é simbólica somente, tem um sentido bem prático, hehe.

Hannuman foi devoto de Rama que, por sua vez, foi uma das encarnações de Vishnu. Eu não sei muito da sua história, mas sim tô por dentro das habilidades da deidade: era um macaco esperto e guerreiro, altamente hábil. No alto da montanha, onde foi construído o templo, há uma inscrição em hindi que diz: "aqui nasceu Hannuman". Eu acredito. Não é à toa que deixou muitos herdeiros gulosos e inteligentes pra posteridade. E Gaba teve que se contentar com a água de coco, mesmo :)

Uma curiosidade: 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia (ou Oxum, no sincretismo), é também uma data festiva aqui, pois se comemora o aniversário de Hannuman. Nesse dia, já estávamos em Hassan, cidade de acesso para visitar as ruínas de Belur e Halebidu, e vimos um desfile de devotos do deus macaco, muitos deles vestidos de laranja (a cor de Hannuman), como os fiéis que vimos no templo de Hampi.

Havia um carro alegórico enfeitado com os motivos da deidade, uma banda tocando tambores, e um carro de som que parecia um mini trio-elétrico, com uma galera, todos homens, dançando como loucos, no meio da rua. Nós olhávamos de longe aquele alvoroço, quando um grupinho de homens afoitos, que perceberam que havia um gringo na área (Gaba!), quiseram puxá-lo para o meio da folia. Foi necessário um senhor me ajudar a evitar o “sequestro” do meu gringo para o meio da rodinha de samba indiano.

Aliás, muito esquisito esse negócio de só ter homem dançando nas festas daqui. Eu acho estranho, mas é muito comum que isso aconteça. As mulheres indianas, pelo menos as do interior, tem a vida social praticamente nula, pelo que eu tenho percebido. Porém, nem sempre foi assim. As paredes das ruínas que vimos, tanto em Hampi como em Belur e Halebid estão aí para comprovar que a realidade era beeem diferente, pelo menos no período medieval.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Om Namah Shivaya



Na viagem de trem de Bellary até Hospet percebi que estava a caminho de um lugar de tradição de culto à Shiva. Vi algumas pessoas com as três listras brancas na testa, insígnia shivaísta. Vi também um senhor, trajado como um devoto, segurando um trishula (especie de tridente, um dos símbolos de Shiva). Parecia que estava num filme!

Para quem não está familiarizado com a deidade, Shiva faz parte da tríade de deuses mais importantes do Hinduísmo. Os outros dois são Vishnu e Brahma (a cerveja veio muito depois). Shiva representa a destruição das velhas estruturas, a transformação. Não é à toa que é o patrono do Yoga, que é uma filosofia de autotransformação.

Ao pisar em Hospet, um muchacho muy simpático, com a mesma marca shivaísta na testa, nos recebeu na saída da estação e, não sei como, percebeu a nossa origem e arriscou algumas palavras em espanhol. Sobre isso, não posso evitar o comentário: é impressionante como a tradição do comércio com os ocidentais, que data, pelo menos, da época das grandes navegações, ficou impregnada na cultura do povo daqui. Um indiano nato dá um jeito de se comunicar com você, e lhe vende qualquer coisa.

Pois bem, esse muchacho nos ofereceu um rickshaw (espécie de moto, só que de três rodas, que funciona como táxi) que nos levou até Hampi, o sítio arqueológico que mencionei no post anterior. Um lugar que posso chamar de mágico, com uma vibração muito forte, segundo a nossa percepção.

Hampi está cercada de montanhas, com um rio que a corta. O principal atrativo do lugar são suas ruínas arqueológicas, que datam do período medieval, e com inúmeras referências dravídicas. Diz-se que os drávidas foram os povos originários da Índia, e que tinham uma cultura muito particular, fortemente matrialcal.

Pude observar também que, fora o turismo, a economia nativa deve ser movimentada pelo cultivo do coco, da banana e da criação de cabras e de vacas. Como a vaca aqui é sagrada, somente se cria gado para o uso no transporte (ainda há carroças puxadas por touros por estas bandas) e, obviamente, extração de leite. A mistura do clima árido do lugar, as cabras, bois e os coqueiros me fez sentir numa espécie misto de sertão com litoral.

As pedras das montanhas de Hampi são bastante similares a meteoritos, com umas formas bastante estranhas, que se equilibram umas sobre as outras de maneira surreal. Como não posso evitar fazer referências com o Brasil, em Hampi me lembrei muito da Pedra da Gávea, gigante, de onde vaza um sol, como diria Gilberto Gil. Pois as pedras de Hampi são parecidas, embora muitíssimo menores, mas uma coisa têm em comum: a disposição das pedras são uma verdadeira instalação. Parece mais obra de ETs do que da própria natureza. Pois foram essas rochas a matéria prima para a construção dos templos de Hampi, que contam com um trabalho de escultura sobre pedra minucioso.

Além das ruínas de um palácio, com uma muralha, piscina, espaços de contemplação artistística, estão os templos. O primeiro, que fica na entrada do vilarejo de Hampi, é dedicado à Shiva. Na primeira tarde, fomos dar uma volta para conhecer algumas ruínas e, já no cair da noite, começamos a escutar, ao longe um mantra: OM NAMAH SHIVAYA. Tanto eu quanto Gaba somos muito ligados nos mantras, então o som funcionou como imã. Lá fomos nós levados pelo mantra, meio hipnotizados. Acordamos quando dois senhores começaram a gritar e apontar na nossa direção, mandando-nos tirar os sapatos. Em todos os templos que visitamos aqui, fosse hindu, jaina ou budista (ainda não fomos a nenhuma mesquita, mas provavelmente o procedimento deve ser igual), tivemos que deixar os sapatos na porta.

Graças a esse detalhe prático, nos demos conta do nosso estado. Aquele mantra era uma gravação, veiculada pelos auto-falantes postos na porta do templo, para marcar o horario dos rituais de puja (oferenda, reverência), sempre no fim da tarde. Os hindus praticantes acendiam lâmpadas de azeite ao redor do monumento localizado na entrada, que tinha uma estátua de Nandi (a famosa vaca sagrada, outro dos símbolos de Shiva) e faziam suas preces.

No dia seguinte, com a luz do dia, pudemos percorrer o templo e ver os detalhes da escultura nas paredes e nos tetos, não somente lá, como também nas demais ruínas ao redor. É realmente impressionante a quantidade de detalhes rebuscados, ao estilo barroco. Esse mesmo estilo pudemos ver nas ruínas de Belur e Halebidu, futuro post.

Um elefante enorme e muito simpático (não era permitido tirar fotos do bichinho) nos recebia na entrada, e dava a bênção com a tromba aos devotos que o presenteassem com uma moedinha, hehe. Obviamente, ele foi treinado para isso, as moedas eram em benefício do templo, e ele as entregava com a tromba ao senhor que o cuidava.

Pude perceber uma coisa, não somente nesse, como em outros templos que visitamos depois: há muito estímulo e espaços para a puja, a reverência, mas não muito para a meditação. Ainda assim, eu e Gaba sentamos em um dos salões e tratamos de meditar, mesmo com o vai-e-vem de visitantes e devotos. E sentimos uma força extraordinária naquele lugar. Pude canalizar, enquanto me conectava com todos aqueles totens, que eles nada mais são que o símbolos de aspectos da energia primordal, ou divina, se preferirem. E que os deuses africanos, nesse sentido, são similares: representam as manifestações das diversas formas dessa mesma energia.

Nesse templo, tive a clara percepção, não intelectual, mas realmente sensorial, de que todas as religiões são as leituras que o ser humano dá ao aspecto divino ou transcendental. E que essa mesma manifestação do absoluto, representada pelos deuses, em suas diversas formas, está presente na natureza, nos animais, plantas, inclusive nas pedras. E até mesmo (e principalmente)... nos próprios seres humanos. OM Namah Shivaya!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Ombros de fora, não! Vai um acarajé?

Estou cada vez mais convencida de que a minha viagem tinha mesmo que começar pelo sul da Índia. Tenho me sentido bastante em casa com o clima, as comidas, as pessoas. Embora me impressione com tudo o que vejo, nada realmente me chocou (pelo menos até agora), exceto uma coisa: o papel da mulher na banda de cá do planeta Terra. Isso é assunto para outro post. Contrastes hay, como no, sobretudo culturais. Porém, tenho que admitir que encontro algumas semelhanças entre o sul indiano e o meu querido nordeste brasileiro, tanto no que se refere a alguns costumes e riquezas naturais quanto a algumas mazelas sociais.

A diferença substancial, que faz da Índia um país muito mais difícil de administrar do que o Brasil, fica por conta da densidade populacional. Somente Karnataka, estado que estamos transitando agora, possui mais de 52 milhões de habitantes, segundo o senso de 10 anos atrás!

Depois de dois dias em Mumbai, tomamos um trem noturno e depois fizemos uma baldeação de trens rumo a Hospet, que é o ponto principal para chegar às ruínas de Hampi. Viajamos no vagão da segunda classe (até a terceira classe é possível viajar num vagão com cama, com ar condicionado e deitado), que contava com dois beliches e roupa de campa limpa. A mesma estrutura não havia nos vagões da parte de trás, onde viajava a maioria das pessoas. Uma loucura, o trem era enorme, mas estava lotadíssimo, com famílias inteiras, incluindo crianças de colo, viajando amontoadas.

Não havia nenhum trem direto de Mumbai a Hospet, por isso tivemos que fazer duas baldeações em trens comuns, sem ar-condicionado, cama ou confortos maiores. Foi nossa primeira experiência em um transporte coletivo na Índia. A primeira baldeação foi na estação de Guntakal, e a segunda na de Bellary, tudo isso para chegar a Hospet e, depois, a Hampi! Ufa...

Foi no trem de Guntakal a Bellary onde percebi que chamava atenção além da conta, por estar com os ombros descobertos. Também, velho, fazia um calor do cabrunco! Quando sai do fru-fru do vagão com ar-condicionado, não aguentei, tirei o casaco, e acabei esquecendo um importante detalhe: na Índia, se você for mulher, para evitar constragimentos, evite usar camiseta e/ou saia/bermuda acima do joelho. Eu estava vestida até demais para o mormaço que fazia, mas os ombros...

Logo que entramos no trem comum, me sentei ao lado de uma senhora muçulmana, com uma criança de colo. A senhora, que talvez fosse mais nova do que eu, estava toda coberta de panos pretos, até a cara. O bafo era infernal, o trem estava cheio, e havia lugar ao lado dela, felizmente. Eu me sentei e, menos de um minuto depois, ela se levantou com o bebê, em busca de outro lugar. Um senhor muito amável, que estava na nossa frente, falava inglês e era um pouco mais open-minded, me chamou a atenção para o detalhe: eu estava com uma blusa que mostrava os ombros. No interior de Índia, isso era ofensivo demais. Ops...garrafal mistake!

Com esse episódio, aprendi que aqui é preciso ter sempre uma blusa de manga à mão, nem que seja fininha, mas que cubra os ombros. A vantagem desse choque cultural foi que pegamos tão buena onda com esse senhor, que ele nos ofereceu um café-da-mahã indiano: idly com chai. Disse que fazia questão de nos oferecer aquele desjejum, pois queria que nos sentissemos bem na Índia. Imediatamente chamou pelo celular a um contato que tinha na estação (durante todo esse tempo o trem estava parado), que prontamente trouxe as iguarias. Ele pagou o boy e nos ofereceu o café-da-manhã, como bom anfitrião, mas que nem sabia nosso nome. Nós tampouco perguntamos o nome desse senhor. O que importa é que eu e Gaba ficamos surpreendidos e gratos com o gesto dele.

E, para melhorar, não é que o tal do idly lembra cuscuz de tapioca? Com a diferença que a massa parece ser de feijão e é salgada. E, para minha surpresa, o idly frito, servido ao lado do cozido, junto com um molhinho picante, tem um sabor muito parecido com...ACARAJÉ! Morri, hehe! Quase tive um treco quando provei. Minha cara de cansaço foi para o espaço quando comi essa maravilha. É por essas e por outras que, salvo alguns abismos culturais (sobretudo no que toca a questão da mulher), posso dizer que estou me sentindo bastante em casa no sul da Índia, pelo menos até agora.

Foto: Momento do nosso jantar em Mumbai, antes da jornada até Hampi. Eu, minha cara de felicidade com o thali (prato tipico do sul da India) e a minha blusinha devassa, mostrando os ombros, que deu o que falar na estação de Guntakal.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma diferente muito igual

Depois da recepção calorosa de bienvenida que recebi das nuvens, aterrissamos em Mumbai. Ao sair do avião, já senti que a Índia me penetrava pelo olfato: imediatamente minhas narinas foram invadidas por um cheiro forte de humidade de carpete (não entendo como usam carpete no aeroporto de um lugar tão húmido!). Some-se a isso um ar-condicionado antigo, que não dava conta da quantidade de gente que desembarcava, e bem-vindos à festa dos ácaros, hehe.

A famosa fila indiana no pátio, rumo ao controle migratório, deu lugar a um amontoado caótico de pessoas, que iam se infilrando sem pedir licença, para então formarem uma fila mais ou menos organizada mais na frente, muito similar a um caracol humano gigante. Nunca vi tanta gente desembarcando, nem no aeroporto da Cidade do México!

Enquanto esperávamos na fila, percebi que alguns indianos típicos me olhavam dos pés à cabeça. Pouco tempo depois, entendi por que: eles não compreendem como um ser da mesma tribo deles se vista diferente, sobretudo sendo mulher. Fui abordada várias vezes pelo olhar de estranheza dos meus irmãos de fenotipo, todos com a mesma pergunta subentendida, pela forma da mirada: cadê o seu sari, moça?

Tá bom, Mumbai é uma capital bastante cosmopolita. De fato, no nosso voo, vi pelo menos duas famílias indianas (da alta casta, provavelmente) que falavam somente em inglês e se vestiam a la ocidental way. Porém, essa galera evidentemente não faz parte da maioria da população do país. E a minha viagem não é de Maharaja, babies: apesar de termos nos hospedado em Colaba, um bairro bastante burguês em Mumbai, eu faço questão de circular por todos os lugares, inclusive onde o povão circula. E as pessoas que circulam nas ruas a pé e viajam em trem comum são, exatamente, as que mais estranharam o meu look.

Por falar em trem comum: que experiência! Aliás, seria mais adequado eu fazer um post especial somente para contar como foi viajar num trem na classe popular, aqui na Índia. In-crí-vel! Na próxima viagem que fizer, tirarei fotos e somarei experiências para um post sobre isso ;)

Voltando à Mumbai, me senti em casa, apesar dos ácaros, da humidade, do inverno com calor de verão (isso é a CARA da minha Bahia, pai), do trânsito caótico às 2 da manhã, do cheiro forte de xixi nas ruas, inclusive nos bairros nobres (só na Barra tem um fedorzinho igual). Também senti familiaridade com os aromas e sabores das especiarias, já que há muito tempo que venho cozinhando como eles. De ver em todo canto alguém tomando chai, das cores e brilhos dos saris, bindis e penduricalhos das indianas (eu vou acabar voltando com um sari na mochila, hehe). Senti até uma certa ternura pelos outdoors mega-ultra-kitsh dos filmes Bollywoody competindo com a Hollywoodiana Crepúsculo (até aqui!), pirei ao ver as pessoas e algumas vacas disputando o asfalto com os carros e autorickshaws, uma espécie de carro-moto (já postarei alguma foto aqui). A calçada existe, mas está quase toda ocupada pelo comércio dos ambulantes. Me senti na lavagem do Bonfim.

Por fim, quase me irritei (fui embora antes disso) com a poluição sonora fabricada pelas buzinas. Quase todos os veículos imagináveis, até as bicicletas, buzinam sem parar. Que semáforo qual nada, não existe trânsito sem buzina neste país!

Dei bye-bye a Mumbai depois de um passeio pelas suas ruas com um guia, onde rapidamente conhecemos um pouco da loucura adorável desta cidade (país? Hehe). Visitamos um templo jaina e, pela primeira vez, senti uma energia forte e linda em um lugar de culto, onde transitam muitos fiéis. Nunca pude sentir esse mesmo astral em qualquer igreja a qual pisei na vida, sinceramente.

Os jainas levam ao extremo a disciplina do ahimsa (ou não violência), a ponto de somente saírem com um pano tapando a boca, para evitar ingerir qualquer germe que passeie pelo ar! De muito ahimsa também viveu Gandhi, o Mahatma (grande alma) da Índia. Visitamos o Museu que foi a casa onde ele viveu, muito impressionante como uma simples pessoa conseguiu a independência do país aplicando somente duas normas éticas do hinduísmo: ahimsa (não-violência) e satya (autenticidade).

Gandhi, assim como Indian Raiways, também mereceria um post à parte, mas terei que me esmerar para isso, e ando meio mareada com a quantidade de informação que recebo por dia! No entanto, nossa jornada apenas começou na capital de Maharashtra. Meu próximo destino (onde estou agora): Hampi, cidade tranquila, um sítio arqueológico que é uma mistura de sertão com litoral. Aqui também fui confundida e até fui batizada com um nome em hindi: Kushi, que significa hapiness. No próximo post eu conto mais sobre Hampi e minha madrinha J

Na foto: eu e minha cara de felicidade com o meu brunch tipicamente indiano. Tô comendo super condimentado todos os dias, feliz da vida! Piriri? Para quem está acostumada com vatapá e acarajé, é nenhuma :)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Good by Argentina...and welcome to India!


Good bye Argentina...and welcome to India!
Foi difícil deixar a nossa casa e a nossa rotina. Quatro meses dando voltas por aí é uma promessa sedutora, porém, nada fácil de concretizar, quando já estamos em tempo de enraizar na vida. Meu ex-colega e companheiro de aventuras pelo sul da Bahia no reveillon de 98/99, Pérsio, quando recebeu meu email de anúncio deste blog, me questionou: que é que você vai fazer aí, mulher? Que itinerário é esse, como foi armado?
Pois é, Per, você tem razão. Uma viagem assim, por tantos países desconhecidos pela maioria de nosotros, não se faz assim, no plim. Sim, fizemos uma programação (que, na prática, já está sendo revista, há!), lemos bastante, sobretudo a respeito da Índia, que era (e é) nosso principal foco. Lonely Planet rules! Tivemos alguns amigos que fizeram viagens similares que nos encorajaram. E o sonho de visitar a Índia existe desde que nos aproximamos da cultura milenar daqui, através do Yoga.
Porém, mesmo com tanta informação e planejamento, fui me dando conta, na véspera da viagem, do quanto foi difícil “largar o osso” da estabilidade e do conforto da minha casinha para me jogar no mundo, já havendo superado bastante os 23 aninhos que tinha em 99, hehe.
No último dia antes de viajar, eu e Gaba nos vimos imersos em uma maratona quase interminável de afazeres de última hora. Deixar a nossa casa, nosso trabalho independente e nossa rotina por quatro meses foi um verdadeiro sacudón. Chegamos ao aeroporto quando faltavam menos de 10 minutos para fechar o check in. Só embarcamos graças a meu cunhadito Fernando, ao tio Eddy, que deu um telefonema providencial, e a um funcionário de Migraciones Argentinas, que colaborou com o meu embarque.
Enfim, muita adrenalina (e algum auto-boicote inconsciente, creo yo), mas, enfim, conseguimos. Foram 22 horas divididas em dois voos (sim, são muitas horas de viagem, ao contrário do que eu disse no post anterior), e ainda mais 3 horas de espera em Johannesburgo. Um dia que não terminava e uma noite curtíssima, pois cruzamos o globo terrestre na direção do sol nascente!
Quando começamos a nos aproximar de Mumbai, do avião, tive uma espécie de visão que me impactou e que, no meu ponto de vista, está sendo muito elucidadora, à medida que vou conhecendo a Índia. Aparentemente, me conectei com a energia do lugar de forma tal que vi uma entidade, diante dos meus olhos. Uma senhora sorridente, vestida com um sari rosa, cheia de adornos, bem gordinha, com a cor da pele bem escura, cabelos lisos e um sorriso maroto e benevolente no rosto.
Ela estava cercada de crianças famintas e demandantes ao seu redor, a quem atendia com muita paciência e amor, sem perder la ternura, jamás! Para mim, essa é a imagem da grande mãe que pulsa junto com o coração da Índia, que um dia foi uma região habitada por povos de organização matriarcal. Essa shaktí provedora e amorosa, que, sem uma figura paterna ou castradora ao lado, teve dificuldades em impor limites aos seus filhos, que terminaram recebendo esses limites pelas mãos duras dos seus muitos pais adotivos. O último deles: a mão-de-ferro da Inglaterra.
A falta de regras, inclusive no trânsito, o caos generalizado (porém incorporado orgânicamente por eles), o satyagraha de Gandhi, confirmado pela benevolência no olhar e nas atitudes de muitos deles, mesclado à ingenuidade meio naïf na apropriação da cultura ocidental, e tantos outros ingredientes alguns picantes, outros talvez demasiado amargos e difícéis de digerir, fazem parte do darshan dessa senhora gordinha do sari rosa, que veio me abençoar e dar as boas-vindas no avião J