quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Nas montanhas de Karnataka
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Belur, Halebidu and Merry Christma's
As únicas exceções, até agora, foram Hassan e Mangalore, que, coincidência ou não, eram lugares de passagem. Os hotéis em ambos ficaram abaixo dos demais em vários itens, mas como a gente ficou lá por pouco tempo, não chegou a traumatizar.
Por outro lado, fazendo a conversão de rúpias para reais...em geral, as diárias dos quartos de casal nos lodges/pousadas/hotéis que ficamos estão custando um pouco menos que a diária individual num quarto coletivo de albergue no Brasil! Bom, nenhuma delas inclui café-da-manhã (aí já seria demais). Ocorre que, quando se faz uma viagem por tanto tempo como a nossa (quatro meses!), e se queremos ir a tantos lugares, não dá para ficar convertendo o tempo inteiro porque, senão, vamos parar na bancarrota, haha. A menos que você seja um Maharaja de verdade, ah, bom. Aí realmente são outros 500 :)
Enfim, o nosso hotel com cheirinho de mofo em Hassan tinha móveis velhos, era escuro, mas as roupas de cama eram limpinhas, hehe. Pois é, Mari, isso eu não negocio. Aliás, sempre se pode (e se deve) ver o quarto antes de pagar.
A vantagem de ficar em Hassan, como eu disse, é que está muito próxima dos templos de Belur e Halebid, que, sim vale a pena visitar. Ambos têm um trabalho fantástico de escultura que, no caso de Belur, tardou nada menos que um século em ser concluído. Nós fomos primeiro a Halebidu e depois a Belur, mas, o que mais nos impressionou, em termos de trabalho de escultura sobre pedra, foi o segundo. Abaixo, foto com detalhes da escultura do templo de Belur, feita com perfeição em 3D.
Observo que as mulheres daqui, além de se vestirem demais, em geral têm uma atitude corporal submissa e oprimida. Muitas andam encolhidas, se escondem. As que são casadas raramente demonstram publicamente afeto, apenas se este for dirigido às crianças. E são justamente os pequenos os que têm direito a andar como querem, peladinhos. Não usam nem fralda, seja menino ou menina, pelo menos até onde observei. No máximo, uma blusinha. As meninas, pré-adolescentes, ainda não tão formatadas, deixam escapar algo de sensualidade e picardia, coisa muito rara.
Enfim: aonde foram parar aquelas mulheres sensuais, participativas nos movimentos artísticos e liberadas sexualmente que aparecem retratadas nos templos de Belur e Halebidu? Reencarnaram na outra banda da Terra; muitas no Brasil, talvez. O mais curioso é que, justamente enquanto o ocidente enfrentava um dos períodos de maior repressão e escuridão da História, a Índia vivia o nascimento do Tantra! Isso é realmente muito louco. Se existiu uma ou mais sociedades de organização matriarcal na Índia ou em outras partes do globo antes disso (seguramente existiram), nenhuma delas, pelo menos que se conheça, deixou o legado de escrituras filosóficas e culturais que o movimento tântrico, que surgiu aqui, na Idade Média, deixou. Detalhes de esculturas sensuais em Halebidu.
Dentro do templo de Belur, em frente a um dos altares, havia um círculo de pedra que a rainha da dinastia dos Hoysalas, que governaram aquela região durante o período em que ambos templos foram construídos, dançava para as deidades. Do lado de fora, é possível, inclusive, ver algumas esculturas de casais em poses sensuais, bem parecidas com as do templo de Khajuraho, conhecido como o templo do "Kama-Sutra". Aliás, no sul da Índia, pode-se dizer que as esculturas de Belur e Halebidu rivalizam com as de lá, com a diferença que, aqui, não são monotemáticas: há também representações dedicadas aos deuses hindus e também para as manifestações culturais e costumes da época. Não há uma escultura que seja exatamente igual a outra. É impressionante.
Então, é Natal (nãããão! Quando eu lembro do Brasil e penso que as lojas devem estar colocando essa versão de Simone no repeat, me dá um alívio estar aqui, hehe)! No momento, estamos em uma praia maravilhosa e relaxada chamada Varkala, uma espécie de "ilha" ou "bolha" européia no sul da Índia, no adorável e tropical estado de Kerala. Estivemos aqui quatro dias, descansando para seguir com o nosso itinerário. Já contarei sobre nossa lagartixagem aqui em Kerala, ô lugar que me faz lembrar o litoral do nordeste, hehe. Amanhã, na noite de Natal, estaremos em cima de um trem rumando para Madurai, uma cidade que abriga templos fantásticos, já no Estado de Tamil Nadu. Assim que provavelmente só postarei do dia 25 em diante, portanto:
Feliz Natal para todos, Namaste! :)
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Hassan-Hassan-Hassan-Hassan-Hassan
Pegamos um busu leito, com cama e tudo, que nos deixou em Bangalore para, de lá ir até Hassan, cidade que fica próxima aos templos de Belur e Halebid, nosso objetivo. Já deu para perceber que nem todos os lugares contam com trasporte direto aqui, o que acaba por tornar um simples deslocamento em uma jornada pra lá de cansativa. Mas tudo bem, a gente programou nossa viagem contando com esse tempo e essa disposição. Do contrário, há que pagar muitíssimo mais caro por um motorista particular que lhe leve, de táxi, aos destinos à sua escolha. E nem sempre isso é garantia de chegar antes, pois grande parte das estradas aqui estão em péssimo estado. Pode-se tranquilamente tardar 4 horas para rodar apenas 150 km! Além do mais, nem sempre é mais confortável ou seguro viajar com um motorista particular, e se perde muito em termos de aprendizado.
Quando entrei no ônibus, tomei um susto: eu nunca tinha visto um leito assim. Em vez de cadeiras, tinha cabines, de um lado e do outro, com beliches, como no trem que tomamos de Mumbai a Guntakal. Todos os passageiros viajam deitados, não há cadeiras. Realmente funciona como uma cama e é ideal para viajar de noite, sobretudo se você está cansado e consegue abstrair a forma nonsense (pelo menos segundo o nosso ponto de vista ocidental) que os motoristas de ônibus na Índia costumam dirigir. Porém, uma vez na chuva, a gente tem que se molhar. Segura na mão de Deus, e vai! Como eu felizmente não tenho nenhum problema para dormir, só acordei quando chegamos a Bangalore.
Chegamos às 5:30 da matina e, de lá, tomamos outro busu para Hassan-Hassan-Hassan-Hassan-Hassan. Essa repetição é uma piada interna: eu e Gaba não gravamos no momento, mas ele está a ponto de fazer um rap com essa palavra. Na rodoviária, os cobradores anunciam os destinos dos ônibus de forma repetitiva e exaustiva, aos berros, de uma maneira muito peculiar. Aguardem soundtrack :)
Mesmo com tanta poesia, se alguém que está lendo estas linhas planeja um roteiro similar ao nosso, evite Hassan. Vá direto se hospedar em Belur, que tem melhor estrutura de hospedagem que Halebid. Ou então, escolha Mysore como ponto de apoio para conhecer os templos. Fora a feirinha, que é bem pitoresca (a de Mysore é bem maior e mais interessante), e a comida do restaurante Suvarna, Hassan não tem muito para ver. Mesmo assim, a gente se divertiu. Segue fotos da feirinha de lá.
Hassan uma cidade bem ruidosa, poluída, nem muito pequena, nem muito grande, e a hospedaria que ficamos lá, recomendada pela Lonely Planet, é bastante caidinha, com aquele típico cheiro de carpete úmido que senti na chegada em Mumbai. Eu não sou o que se pode chamar de mulher fresca, mas, sinceramente, deu nojinho. Com um pouco de água e sabão se podem fazer maravilhas, em qualquer lugar do mundo. Parece que aqui na Índia, sobretudo nas cidades de passagem, as pousadas não fazem muita questão de se deter no quesito limpeza...
Em compensação, foi na antiga rodoviária de Hassan que provei o meu primeiro (e talvez mais gostoso até aqui) Masala Dosa, hummm...é super típico no sul da Índia comer um dosa no café-da-manhã ou na janta, sempre com um chai, óbvio. Um vício!
Pois bem, mas além de desrecomendar Hassan, esse post tinha outro objetivo: falar dos templos de Belur e Halebid. Porém, vou deixar para o próximo, pois acho que vale a pena um texto dedicado somente àquelas esculturas e o que elas representam, inclusive em termos de desrepressão e liberação, sobretudo para a mulher, se compararmos com o tempo histórico no qual a maioria parece viver aqui na Índia: uma espécie de Idade Média tardia.
domingo, 18 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Planeta dos Macacos
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Om Namah Shivaya
sábado, 10 de dezembro de 2011
Ombros de fora, não! Vai um acarajé?
Estou cada vez mais convencida de que a minha viagem tinha mesmo que começar pelo sul da Índia. Tenho me sentido bastante em casa com o clima, as comidas, as pessoas. Embora me impressione com tudo o que vejo, nada realmente me chocou (pelo menos até agora), exceto uma coisa: o papel da mulher na banda de cá do planeta Terra. Isso é assunto para outro post. Contrastes hay, como no, sobretudo culturais. Porém, tenho que admitir que encontro algumas semelhanças entre o sul indiano e o meu querido nordeste brasileiro, tanto no que se refere a alguns costumes e riquezas naturais quanto a algumas mazelas sociais.
A diferença substancial, que faz da Índia um país muito mais difícil de administrar do que o Brasil, fica por conta da densidade populacional. Somente Karnataka, estado que estamos transitando agora, possui mais de 52 milhões de habitantes, segundo o senso de 10 anos atrás!
Depois de dois dias em Mumbai, tomamos um trem noturno e depois fizemos uma baldeação de trens rumo a Hospet, que é o ponto principal para chegar às ruínas de Hampi. Viajamos no vagão da segunda classe (até a terceira classe é possível viajar num vagão com cama, com ar condicionado e deitado), que contava com dois beliches e roupa de campa limpa. A mesma estrutura não havia nos vagões da parte de trás, onde viajava a maioria das pessoas. Uma loucura, o trem era enorme, mas estava lotadíssimo, com famílias inteiras, incluindo crianças de colo, viajando amontoadas.
Não havia nenhum trem direto de Mumbai a Hospet, por isso tivemos que fazer duas baldeações em trens comuns, sem ar-condicionado, cama ou confortos maiores. Foi nossa primeira experiência em um transporte coletivo na Índia. A primeira baldeação foi na estação de Guntakal, e a segunda na de Bellary, tudo isso para chegar a Hospet e, depois, a Hampi! Ufa...
Foi no trem de Guntakal a Bellary onde percebi que chamava atenção além da conta, por estar com os ombros descobertos. Também, velho, fazia um calor do cabrunco! Quando sai do fru-fru do vagão com ar-condicionado, não aguentei, tirei o casaco, e acabei esquecendo um importante detalhe: na Índia, se você for mulher, para evitar constragimentos, evite usar camiseta e/ou saia/bermuda acima do joelho. Eu estava vestida até demais para o mormaço que fazia, mas os ombros...
Logo que entramos no trem comum, me sentei ao lado de uma senhora muçulmana, com uma criança de colo. A senhora, que talvez fosse mais nova do que eu, estava toda coberta de panos pretos, até a cara. O bafo era infernal, o trem estava cheio, e havia lugar ao lado dela, felizmente. Eu me sentei e, menos de um minuto depois, ela se levantou com o bebê, em busca de outro lugar. Um senhor muito amável, que estava na nossa frente, falava inglês e era um pouco mais open-minded, me chamou a atenção para o detalhe: eu estava com uma blusa que mostrava os ombros. No interior de Índia, isso era ofensivo demais. Ops...garrafal mistake!
Com esse episódio, aprendi que aqui é preciso ter sempre uma blusa de manga à mão, nem que seja fininha, mas que cubra os ombros. A vantagem desse choque cultural foi que pegamos tão buena onda com esse senhor, que ele nos ofereceu um café-da-mahã indiano: idly com chai. Disse que fazia questão de nos oferecer aquele desjejum, pois queria que nos sentissemos bem na Índia. Imediatamente chamou pelo celular a um contato que tinha na estação (durante todo esse tempo o trem estava parado), que prontamente trouxe as iguarias. Ele pagou o boy e nos ofereceu o café-da-manhã, como bom anfitrião, mas que nem sabia nosso nome. Nós tampouco perguntamos o nome desse senhor. O que importa é que eu e Gaba ficamos surpreendidos e gratos com o gesto dele.
E, para melhorar, não é que o tal do idly lembra cuscuz de tapioca? Com a diferença que a massa parece ser de feijão e é salgada. E, para minha surpresa, o idly frito, servido ao lado do cozido, junto com um molhinho picante, tem um sabor muito parecido com...ACARAJÉ! Morri, hehe! Quase tive um treco quando provei. Minha cara de cansaço foi para o espaço quando comi essa maravilha. É por essas e por outras que, salvo alguns abismos culturais (sobretudo no que toca a questão da mulher), posso dizer que estou me sentindo bastante em casa no sul da Índia, pelo menos até agora.
Foto: Momento do nosso jantar em Mumbai, antes da jornada até Hampi. Eu, minha cara de felicidade com o thali (prato tipico do sul da India) e a minha blusinha devassa, mostrando os ombros, que deu o que falar na estação de Guntakal.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Uma diferente muito igual
Depois da recepção calorosa de bienvenida que recebi das nuvens, aterrissamos em Mumbai. Ao sair do avião, já senti que a Índia me penetrava pelo olfato: imediatamente minhas narinas foram invadidas por um cheiro forte de humidade de carpete (não entendo como usam carpete no aeroporto de um lugar tão húmido!). Some-se a isso um ar-condicionado antigo, que não dava conta da quantidade de gente que desembarcava, e bem-vindos à festa dos ácaros, hehe.
A famosa fila indiana no pátio, rumo ao controle migratório, deu lugar a um amontoado caótico de pessoas, que iam se infilrando sem pedir licença, para então formarem uma fila mais ou menos organizada mais na frente, muito similar a um caracol humano gigante. Nunca vi tanta gente desembarcando, nem no aeroporto da Cidade do México!
Enquanto esperávamos na fila, percebi que alguns indianos típicos me olhavam dos pés à cabeça. Pouco tempo depois, entendi por que: eles não compreendem como um ser da mesma tribo deles se vista diferente, sobretudo sendo mulher. Fui abordada várias vezes pelo olhar de estranheza dos meus irmãos de fenotipo, todos com a mesma pergunta subentendida, pela forma da mirada: cadê o seu sari, moça?
Tá bom, Mumbai é uma capital bastante cosmopolita. De fato, no nosso voo, vi pelo menos duas famílias indianas (da alta casta, provavelmente) que falavam somente em inglês e se vestiam a la ocidental way. Porém, essa galera evidentemente não faz parte da maioria da população do país. E a minha viagem não é de Maharaja, babies: apesar de termos nos hospedado em Colaba, um bairro bastante burguês em Mumbai, eu faço questão de circular por todos os lugares, inclusive onde o povão circula. E as pessoas que circulam nas ruas a pé e viajam em trem comum são, exatamente, as que mais estranharam o meu look.
Por falar em trem comum: que experiência! Aliás, seria mais adequado eu fazer um post especial somente para contar como foi viajar num trem na classe popular, aqui na Índia. In-crí-vel! Na próxima viagem que fizer, tirarei fotos e somarei experiências para um post sobre isso ;)
Voltando à Mumbai, me senti em casa, apesar dos ácaros, da humidade, do inverno com calor de verão (isso é a CARA da minha Bahia, pai), do trânsito caótico às 2 da manhã, do cheiro forte de xixi nas ruas, inclusive nos bairros nobres (só na Barra tem um fedorzinho igual). Também senti familiaridade com os aromas e sabores das especiarias, já que há muito tempo que venho cozinhando como eles. De ver em todo canto alguém tomando chai, das cores e brilhos dos saris, bindis e penduricalhos das indianas (eu vou acabar voltando com um sari na mochila, hehe). Senti até uma certa ternura pelos outdoors mega-ultra-kitsh dos filmes Bollywoody competindo com a Hollywoodiana Crepúsculo (até aqui!), pirei ao ver as pessoas e algumas vacas disputando o asfalto com os carros e autorickshaws, uma espécie de carro-moto (já postarei alguma foto aqui). A calçada existe, mas está quase toda ocupada pelo comércio dos ambulantes. Me senti na lavagem do Bonfim.
Por fim, quase me irritei (fui embora antes disso) com a poluição sonora fabricada pelas buzinas. Quase todos os veículos imagináveis, até as bicicletas, buzinam sem parar. Que semáforo qual nada, não existe trânsito sem buzina neste país!
Dei bye-bye a Mumbai depois de um passeio pelas suas ruas com um guia, onde rapidamente conhecemos um pouco da loucura adorável desta cidade (país? Hehe). Visitamos um templo jaina e, pela primeira vez, senti uma energia forte e linda em um lugar de culto, onde transitam muitos fiéis. Nunca pude sentir esse mesmo astral em qualquer igreja a qual pisei na vida, sinceramente.
Os jainas levam ao extremo a disciplina do ahimsa (ou não violência), a ponto de somente saírem com um pano tapando a boca, para evitar ingerir qualquer germe que passeie pelo ar! De muito ahimsa também viveu Gandhi, o Mahatma (grande alma) da Índia. Visitamos o Museu que foi a casa onde ele viveu, muito impressionante como uma simples pessoa conseguiu a independência do país aplicando somente duas normas éticas do hinduísmo: ahimsa (não-violência) e satya (autenticidade).
Gandhi, assim como Indian Raiways, também mereceria um post à parte, mas terei que me esmerar para isso, e ando meio mareada com a quantidade de informação que recebo por dia! No entanto, nossa jornada apenas começou na capital de Maharashtra. Meu próximo destino (onde estou agora): Hampi, cidade tranquila, um sítio arqueológico que é uma mistura de sertão com litoral. Aqui também fui confundida e até fui batizada com um nome em hindi: Kushi, que significa hapiness. No próximo post eu conto mais sobre Hampi e minha madrinha J
Na foto: eu e minha cara de felicidade com o meu brunch tipicamente indiano. Tô comendo super condimentado todos os dias, feliz da vida! Piriri? Para quem está acostumada com vatapá e acarajé, é nenhuma :)