sábado, 28 de janeiro de 2012

Chennai: nossa despedida amorosa do sul da Índia

Este post é dedicado à Anil e família, e à minha ex-colega da Faculdade de Jornalismo, Ana Paula Guedes. Paulete: nem você teria noção de que aquele nosso encontro, na saída do Ilê, renderia essa história, hehe :)

Depois da tempestade, vem a calmaria. Para minha sorte e a de Gaba, pudemos vivenciar a verdade do velho ditado supracitado! Saímos de Pondicherry no último dia de 2011, chocados com o estrago que o ciclone Thane (teve até nome) causou na cidade e suas redondezas. No ônibus rumo a Chennai, pudemos perceber o alcance do dito-cujo: realmente foram um bons quilômetros de extensão. Soube, há pouco tempo, via Mari, a aurovileana brasileira que comentei no post anterior, que somente no dia 16 de janeiro se restabeleceram por completo os serviços da cidade. Que loucura!

O fato é que Chennai nos recebeu de portas e corações abertos, e foi o lugar onde tivemos uma experiência de estar em família na Índia, graças ao nosso amigo Anil, um jornalista estadunidense, filho de um indiano com uma judia.

Nós com Anil :)


Anil é um capítulo à parte, não só pela mescla de sua origem, mas também pelas coincidências (ou causalidades) da vida que proporcionaram nossos encontros. Eu o conheci na saída do bloco afro Ilê Ayê, no carnaval de 2009, em Salvador. Fomos apresentados por minha querida ex-colega da Facom, Ana Paula Guedes, justo quando ele estava prestes a se mudar a trabalho para Buenos Aires.

Uma vez já instalado na capital portenha, nos tornamos amigos. Eu e Gaba inclusive conhecemos a mãe dele e um pouco da história de suas origens. Porém, Anil terminou a sua temporada em Buenos Aires no fim de 2009, e voltou para os EUA. Não o vimos mais desde então, e foi uma feliz surpresa reencontrá-lo na Índia.

Graças à Mark Zuckeberg e seu Facebook, Anil ficou sabendo pelas fotos que estávamos circulando pelo sul da Índia, e nos avisou que estaria lá poucos dias depois. Conseguimos combinar um encontro e marcamos para passar o reveillon juntos. Ele, muito gentilmente, e com o aval da família, decidiu nos hospedar por uma noite, mas a empatia e a fluidez dos acontecimentos posteriores foram tantas, que terminamos ficando quatro dias!

Conhecemos Mala, a tia de Anil, uma exímia cantora de música clássica hindu. Tivemos uma jam sesion exclusiva, que foi incrível, e ficamos sabendo que ela participou, como intérprete, de um dos discos ao vivo do músico Ravi Shankar. Um arraso!

Também ficamos sabendo um pouco mais da história da família e nos surpreendemos ao nos inteirar que o avô de Anil havia sido satyagrahin, e trabalhou com Gandhi, lado a lado, para articular a revolução pacífica que libertou Bharat (Índia) do colonialismo inglês. Além disso, esteve na linha de frente na construção dos pilares da República da Índia, depois do assassinato de Gandhi.

Pois foi essa família incrível que nos recebeu tão bem, e nos fez sentir em casa, realmente, na Índia. Nos recuperamos do susto do ciclone com muita comida caseira, deliciosa, diga-se de passagem, que só se pode provar num lar autenticamente indiano. Tivemos intercâmbios de idéias interessantíssimos com o pai, a tia e os primos de Anil.

Foto da família reunida com convidados: eu, Gaba e um casal de amigos deles, médicos homeopatas, com os filhos

Crianças fofas e talentosas, deram um show, cada um na sua especialidade: a menina, Divya, cantou música folclórica de Karnataka (lindo!) e os meninos, Shubanka e Bharat, tocaram teclado

Tivemos ainda o privilégio de sermos apresentados, através da tia Mala e de Prátima, prima de Anil, a uma técnica de meditação chamada Sahaj Marga, uma modalidade de Raja Yoga de um mestre de Chennai. Os dias que nos restavam na cidade, que eram 3, até a nossa partida para Kuala Lumpur, na Malásia, estivemos fazendo a iniciação na técnica, que realmente teve o grande mérito de abrir a nossa percepção para uma maneira muito mais orgânica de meditar, segundo as nossas experiências e pontos de vista.

Salão de meditação do Shri Ram Chandra Mission

Nesses dias, não paramos de ouvir a frase: uau, vocês são sortudos! Tantas vezes ouvimos isso, que se tornou um mantra. Realmente, depois do choque que foi o ciclone de Pondicherry, tivemos muita sorte na nossa experiência em Chennai. Foi um verdadeiro mimo para nossa alma, uma despedida à altura de todas as experiências maravilhosas que tivemos na ronda que fizemos pelo sul da Índia ! Thank you Anil, Mala, Prátima, Veeren, Shubanka, you're our family in India! :)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Somewhere over the raimbow...Pondicherry, Auroville e o Mágico de Oz

Seguramente muitos aqui devem se lembrar da história do Mágico de Oz. Doroty, a protagonista, era uma menina camponesa, que vivia sonhando com um lugar fantástico além do arco-íris, com um pote de ouro e outras maravilhas mais habitando esse somewhere longínquo e...fantasioso!

Meu momento Doroty, em Auroville. Se bem a estrada não era de tijolos amarelos, encontrei um globo de ouro, depois do arco-íris! Muito melhor que um pote, né não? Hehe

Quem de nós não teve, uma ou outra vez na vida, o seu momento Doroty? Um belo dia, como na fábula, nos aparece um pesadelo, um furacão, que nos obriga a enfrentar os nossos fantasmas. Nesse ínterim, podemos ter a sorte de encontrar, como Doroty, companheiros de jornada. No caso dela, o leão covarde, o homem de lata sem coração e o espantalho sem cérebro. No meu caso e no de Gaba, uma russa, um alemão e uma eslovena.

E vamos todos juntos em busca de um mestre, o famoso Mágico de Oz, que, no fim das contas, só nos faz reconhecer que aquele lugar tão sonhado, além do arco-íris; as habilidades almejadas, e até mesmo o nosso sonho perdido, estiveram o tempo inteiro ao nosso alcance, bem embaixo do nosso nariz. “Não há lugar como a nossa casa” é o bordão e a moral da história de Doroty, avatar absoluto do meu aniversário número 36.

Chegamos em Pondicherry e ficamos impressionados, pois encontramos uma espécie de vila francesa no meio da Índia. Não toda a cidade, mas o bairro próximo à orla é todo francês: os nomes das ruas, o comércio, a arquitetura de algumas casas e edifícios e até o passeio! Nota: na Índia, as pessoas andam no meio da rua e os passeios, quando existem, são ocupados pelos comerciantes.

Nos hospedamos numa guesthouse na rue La Bordonnais, de um francês que veio morar na Índia há muitos anos. Não vou mencionar nem o nome do senhor, nem a guesthouse, pois nossa experiência lá foi um pouco traumática. Mas, no final, deu tudo certo, como já verão.

De Pondicherry, fomos visitar a cidade shivaísta de Chidambaram, onde, no caminho, cochilei no busu, e tive mais uma das minhas visões: vi um Shiva Nataraja gigante na minha frente, dançando. E senti, como em Hampi, que estava me aproximando de um território Shivaísta. Chidambaram tem um grande templo dedicado à Shiva Nataraja e foi uma emoção grande ver tantos devotos de Shiva reunidos.

Imagens de Chidambaram, a terra de Shiva Nararaja


Devotos de Kartikeya, o Deus da guerra. Poucos o conhecem, mas ele foi o segundo filho de Shiva e é irmão de Ganesha

Também em Pondicherry conhecemos o Aurobindo Ashram e um pouco mais da história e proposta desse grande mestre de Yoga, que teve ao seu lado uma mulher retada. Uma francesa chamada carinhosamente de Mother pelos discípulos. Ao contrário do que muitos pensam, foi a Mother, e não Aurobindo, a idealizadora e fundadora da comunidade Auroville, que existe desde o fim dos anos 60, a mais ou menos 10 km de Pondicherry.

Auroville é uma realização que contou e ainda conta com o apoio de entidades internacionais e de muitas doações, e tem como objetivo, segundo a minha percepção, enraizar o ideal de Aurobindo, que, em poucas palavras, seria fazer da vida um sádhana ou prática de Yoga. E isso inclui: vida em família, escola dos filhos, trabalho, lazer, esportes, cultura, etc. Por isso é chamado Yoga Integral. O projeto Auroville continua firme até hoje, tem um impacto social importante e congrega habitantes, ou aurovileanos, de todas as nações, que vivem na e da comunidade.

Fotos da árvore que fica no centro geográfico de Auroville e, abaixo, do centro de visitantes


Através do contato de nossos amigos Cintia Sento Sé e Atílio Baroni, que tiveram uma experiência muito intensa, de dois meses, em Auroville, em 2010, fomos conhecer Mari, uma aurovileana brasileira, que nos recebeu superbem e tinha a intenção de nos mostrar a comunidade e o famoso Matrimandir, uma estrutura circular dourada que é o símbolo de Auroville. Dentro da estrutura, há uma esfera de cristal de quartzo gigante, que recebe a luz solar diariamente. O Matrimandir é o centro de meditação de Auroville e também motivo de curiosidade, visitas, e também de fotos ridículas, hehe.




Infelizmente só pudemos conhecer o Matrimandir por fora, pois Mari, nossa anfitriã, tinha um compromisso e nos alertou que, naquele dia, estaria chegando um ciclone em Pondicherry, portanto talvez o Matrimandir fechasse em algum momento para a visitação. Oi? Cuma? Ciclone?

Como diria o jumento dos Saltimbancos, primeira lição do dia: na Ásia, fique de olho na previsão do tempo e nos alertas de tsunami, ciclone, terremotos e demais. Não vacile com isso, pois toda a região é muito vulnerável. Você não veio aqui para ter uma visão do apocalipse, correto?

Pois bem, assustados com o prognóstico, depois de ver o Matrimandir por fora, encurtamos nossa visita a Auroville, e voltamos para Pondicherry, para a guesthouse do francês, já com as primeiras gotas de chuva. Mais tarde, na madrugada do dia 30/12, meu aniversário, essas gotitas se transformaram num ciclone violento.

Ainda na tarde do dia 29/12, o vento já dava o ar da sua graça, e mostrava que havia chegado para ficar, e que não nos deixaria dormir em paz. A pousada estava quase cheia e o nosso quarto era literalmente um puxadinho na laje do francês, que, quando chegamos, nos pareceu simpático, pois era limpo e, como estava no terraço, tinha uma visão panorâmica do bairro. Ocorre que esse puxadinho não foi construído à prova de ciclone...

Pedimos ao dono da pousada para trocar de quarto, mas ele negou, dizendo que havia hóspedes que chegariam naquela noite para passar o ano novo em Pondicherry. Muito mal informado, este senhor nos disse que o ciclone havia mudado de rota (!), e que passaria longe dali. E que, se tivéssemos problemas para dormir, nos alojaria na recepção, como medida de emergência.

Às duas da madrugada do meu aniversário, era impossível dormir. O vento sacudia o teto de chapa com força e fazia um barulho tremendo. Tivemos que colocar tapões no ouvido para tentar dormir. Uma hora e meia depois, o francês tentou nos avisar que podíamos trocar de quarto, pois, obviamente, os hóspedes que chegariam mudaram de opinião, e havia quartos disponíveis. Porém, não escutamos. O barulho era ensurdecedor e estávamos com os tapões. Além disso, jamais saberemos o quanto foi a sua insistência em nos desalojar daquele quarto, que realmente estava em perigo.

Houve um momento que começaram a entrar os primeiros pingos de chuva no quarto. Foi o chamado de Deus para que o desocupássemos. Pegamos apenas uma muda de roupa seca e nossa capa de chuva. Gaba teve o incrível insight de colocar nossos pertences de valor, incluindo o netbook que vos habla, câmera fotográfica, passaporte e nossas mochilas dentro de um armário do quarto. Descemos e batemos na porta do francês, pedindo que nos alojasse em qualquer lugar, menos naquele quarto! E nos ofereceu outro que estava disponível.

No dia seguinte, às oito da manhã, o francês bateu na nossa porta desesperado, para que fôssemos com ele recuperar nossos passaportes, pois o teto do quarto havia voado, e uma das paredes, que obviamente não era de tijolo e cimento, também tinha caído. Já havíamos escutado um barulho horrível e eu pensei que perderíamos nossas coisas, pois o vento ou a água fariam um estrago. Isso só não ocorreu graças ao cuidado de Gaba.

O vento era de uma força que eu nunca vi igual. Foi a vez que mais estive perto de um furacão na vida e, acreditem, não é nada parecido com qualquer ventania que tenham visto no Brasil!

Recuperamos primeiro os pertences de valor e, mais tarde, quando o vento melhorou, o resto das coisas. Tivemos quase nenhum prejuízo, apenas um caderno e algumas anotações perdidas e roupas e sapatos molhados. Já Pondicherry...ficou devastada, inclusive se registraram alguns óbitos em zonas mais vulneráveis, infelizmente.

Imagens de Pondicherry pós-ciclone



Passei o meu aniversário como queria, exatamente como havia dito a Gaba um dia antes do ciclone: quieta, tranquila, sem me deslocar. Queria fazer as unhas, fiz. À luz de velas. Queria comer um espaguete, como no? Foi o prato do dia, já que era o mais prático de fazer. Todos os restaurantes estavam fechados, pois não havia luz na cidade e grande parte do comércio havia sofrido sérios danos. Queria festejar o meu aniversário em petit comite, e assim foi: com Gaba e três hóspedes da Pousada: uma eslovena, um alemão e uma russa, que montaram uma mesinha com frutas, bolachas e um brandy indiano.

Meu aniversário à luz de velas, e os convidados :)



Lakshmi, a elefantona do templo de Pondicherry, que nos deu a bênção de despedida de 2011, na manhã depois do ciclone

Assim festejamos o aniversário mais louco da minha vida. Nesse dia, pude perceber na própria pele o quanto nós, brasileiros (e também argentinos, uruguaios, paraguaios) somos privilegiados, abençoados e protegidos pela natureza que, quando está no comando e com raiva, é feroz e implacável. Não há lugar como a nossa casa!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Natal no trem de Madurai

Este post tem trilha sonora!

A nossa noite de Natal foi muito sui generis, como todas as demais datas importantes que o calendário marcou, nessa nossa viagem pela Índia. Tínhamos uma passagem partindo de Chennai para Kuala Lumpur (Malásia) e, de lá, para Singapura, no dia 4 de janeiro. Portanto, nos restava pouco mais de 10 dias no sul da Índia e ainda nos faltava conhecer o estado de Tamil Nadu. A temporada de paz total em Kerala havia chegado ao fim, e rumamos para o terra mais drávida da Índia, segundo eles mesmos se autoproclamam.

Fotos do templo Meenakshi, Madurai, Tamil Nadu



Para quem não sabe, drávida foi o povo autóctono ou originário da Índia. Eram donos daquelas terras que, posteriormente, foram tão invadidas ao longo da história. Como eram agricultores e não tinham cultura bélica, se supõe que foram migrando do norte, no Vale do Indo, para o sul, devido às secas e numerosas invasões sofridas ao longo de milênios. Por isso, talvez, pude sentir, nessa parte do país, uma atmosfera tão shivaísta.

Na foto: reverência à Nandi, o touro de Shiva

Shiva é o senhor do Yoga e, na mitologia, um dos deuses que mais está vinculado ao povo drávida. Isso porque a origem primitiva do Yoga se remonta a uma época muito remota, anterior inclusive ao hinduísmo. Por isso, quase sempre Shiva é representado como um homem de pele azul. Entre outras razões, é porque os drávidas, de tão pretinhos, tinham o tom da pele azulado. Realmente pude ver os descendentes dos drávidas andando pelas ruas, mas não somente em Tamil Nadu, como em todo sul da Índia.

Voltando ao trem, conseguimos as duas últimas passagens, que só restavam na classe sleeper, e partimos na noite de 24/12 para a cidade de Madurai. Sleeper é o vagão que possui seis beliches, portanto, viajar nele é uma espécie de loteria. Se os seus demais companheiros de jornada noturna forem silenciosos e bacanas, massa. Se não, é dureza! No nosso caso, demos sorte de novo, gracias a la madre eterna, e viajamos junto com uma família muçulmana muito legal.

Através deles, ficamos sabendo que, mesmo sendo de religiões distintas, muitos indianos hindus ou muçulmanos comemoravam o Natal e o ano novo cristãos, por exemplo. Se reuniam para jantar juntos e até trocavam presentes! E eu achando que ninguém dava bola para Natal na Índia, estava redondamente enganada. Em cidades como Madurai e Chennai, que são bastante hindus, não faltaram referências natalinas. Também nos apresentaram a um hit de Tamil Nadu, que já vínhamos escutando desde o início da viagem: Why this Kolaveri Di. O cantor, na verdade, ator, que gravou a música para um filme que ainda nem foi lançado, já é uma estrela pop absoluta em toda a Índia.

Escutem o hit Tamil aqui: Why this Kolaveri Di

As principais atrações de Madurai são o Meenakshi temple, um templo tipicamente hindu e gigantesco, e o Museu de Gandhi. Sinceramente, chegar em Madurai foi um choque, saindo de Kerala. Por isso, digo, e repito, que o comunismo keralense funciona. Em Tamil Nadu, me lembrei novamente que estava na Índia do senso comum: um país extremamente desigual e caótico. Infelizmente, é compreensível e notável, em muitos lugares, a razão do país terminar se encaixando nesse estereótipo. Muito lixo nas ruas, muita mendicância e um trânsito infernal e barulhento, que me fez lembrar Hassan.

Não quero sero ser mal-agradecida com Tamil Nadu, afinal, como já verão, tive lindas experiências no Estado. Porém, realmente, Madurai não foi um lugar no qual me sentisse à vontade na Índia. Para começar, estava tudo lotado! Tá bom, chegamos lá no dia 25/12. Que lugar turístico do mundo está tranquilo justo esse dia? Nenhum, né. Mas não foi só a cheia que me incomodou. O descaso do Governo, a olhos vistos, a esculhambação da cidade, a sujeira, a miséria e uma certa truculência dos funcionários do templo Meenakshi.

Fotos de esculturas no interior do Meenakshi Temple




Tivemos um episódio cômico, quando fui novamente confundida como hindu, no interior do Meenakshi. Havia algumas partes do templo nas quais só se permitia a entrada de hindus. Eu e Gaba não reparamos numa dessas placas de aviso que proibia a entrada de ocidentais, e acompanhamos a multidão que se dirigia ao altar de Shiva. Quem está lendo o blog do início já deve ter percebido que somos shivaístas de carteirinha.

Porém, Gaba, com a cara de gringo que tem, não negava ser penetra e foi barrado. E eu? Não! Entretanto, minha cara-de-pau não foi suficiente. Não sei se por culpa, cautela, ou as duas coisas juntas, decidi retroceder, para evitar constrangimentos, pois estava com uma mochila ocidental que dava pinta e poderia me fazer parecer suspeita.

Comemos muito bem em Madurai, vimos esculturas incríveis no templo Meenakshi e tivemos uma aula de história recente da Índia, no Museu de Gandhi. Conhecemos melhor a luta dos satyagrahins, que não foi um movimento somente de Gandhi, mas de muitos indianos, que também deram a vida pela construção da República da Índia. Ficamos sabendo, também, que foi em Madurai que Gandhi adotou o khadi pela primeira vez e, depois disso, essa passou a ser a sua vestimenta e o símbolo da resistência indiana contra o colonialismo inglês.

Foto de Gandhi, vestido com o khadi, e o tear, que terminou sendo o símbolo da bandeira da Índia

Dois dias em Madurai foram suficientes e, de lá, picamos a mula a bordo de um busú noturno rumo a Pondicherry, uma ex-colônia francesa no sul da Índia, onde passei o aniversário mais louco da minha vida! Aguardem o próximo post :).

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Bem-vindos à Varkala, a sua bolha ocidental no sul da Índia!

Kerala é um Estado com suas singularidades. Além do comunismo democcrático, dos Backwaters, da atmosfera tropical, que faz qualquer baiano se sentir bastante à vontade, tem também sua própria língua: malayalam! Pois é, viajar na Índia é como visitar um país em cada estado por onde você passa, como comentei em um post anterior.

Porém, ao contrário do sotaque baiano, com uma cadência suave e vogais abertas, o malayalam é acelerado e eu me diverti muito com isso, pois ele transplantam essa cadência para o inglês. Para ter uma idéia, pronuncie a palavra malayalam o mais rápido que a sua língua permitir, e você terá uma experiência sonora aproximada do que é escutar as pessoas falando em Kerala. Segundo os keralenses, malayalam é o idioma mais dificil de aprender, dentre todos os demais derivados do sânscrito na Índia. E quem sou eu para contradizer tal afirmação!

Nós em Varkala :)

Outra das singularidades de Kerala foi haver encontrado uma espécie de bolha ocidental no sul da Índia: Varkala. E, pode parecer antipático, mas, inclusive para mim, naquela altura da viagem, foi um alívio ter essa bolha à disposição. De outra forma, é impossível, sendo mulher, desfrutar do mar na Índia. E o Governo de Kerala parece ter essas diferenças culturais e de costumes bem em conta, no momento de promover as praias e atrativos turísticos da região para os ocidentais...Varkala é uma praia que fica quase no extremo sul de Kerala, a umas três horas de busu de Allepey. Foi a primeira (e única) praia na Índia na qual me senti à vontade para estar de biquini. Tampouco fui a muitas, mas soube que tanto o litoral de Goa como uma parte da costa de Karnataka também atraem muitos ocidentais, por terem estrutura turistica e serem biquini friendly, assim como Varkala.

Mesmo assim, o meu derriere foi devidamente fotografado por um grupo de indianos munidos de celulares com câmera. O meu e os de outras turistas que desfrutavam das areias de Varkala impunemente. Talvez você se pergunte: “Ué, mas os indianos estão tão desacostumados com biquini? Eles não vão à praia?”. Claro que sim, e claro que não. Eles vão à praia, mas mulheres sempre estão devidamente cobertas de pano, e alguns homens também. Os mais ocidentalizados ainda arriscam um calção de banho, mas as muchachas só entram no mar de roupa. Além disso, como eu disse no post anterior: a maioria absoluta delas e muitos deles, inclusive, não sabe nadar. E se apavora com as marolas que rompem perto da areia. Meninos, eu vi!

Por essas e por outras, a Índia está bem longe de ser uma Tailândia, e realmente o seu forte não são as praias. Muito embora elas existam, e algumas sejam espetaculares, não há cultura praieira e o choque cultural é certo, e quase sempre desagradável de viver. Porém, mesmo assim, Varkala estava lotada. Pela beleza do lugar, e também por ser um oásis ocidental. Estava cheia de russos, alemães, franceses, holandeses, ingleses, suíços, escandinavos, entre outros europeus que decidiram fugir do frio natalino.

Ásanas do Yoga na praia

Foi em Varkala, por exemplo, que eu conheci o Hang, um instrumento de percussão criado na Suíça! O hang é difícil de descrever, pois, ao mesmo tempo que é percussivo, também é melódico. E produz um som muito particular. Quem nos apresentou ao hang foi um suíço que estava fazendo uma jam sesion na praia. Segue abaixo uma foto do suíço tocando o hang, com uma platéia de curiosos, quase todos indianos.

A praia, em si, não é muito extensa, mas a beleza está nos cliffs (penhascos), que fazem do lugar um grande mirante para o pôr-do-sol. Por estarmos de frente para o Mar Arábico, o sol, em Varkala, se põe no mar, como em quase toda a costa de Kerala. Algo parecido a gente só vê na Bahia, em Salvador, hehe (evém o bairrismo da criatura!). É sério, no Brasil não estamos acostumados a ver o entardecer no mar, e sim o amanhecer. Salvador, por ser uma península, nos proporciona quase as duas visões. Na Barra, por exemplo, vemos o sol nascer no Atlântico, no Cristo, e, no porto, vemos o sol se pôr... atrás da Ilha de Itaparica e não no mar, como do lado de cá, hehe.

Os famosos cliffs (penhascos) de Varkala

Pôr-do-sol no Mar Arábico

Varkala foi a nossa despedida de Kerala. Não é difícil notar o quanto eu gostei daquelas bandas, portanto: recomendo! Passamos quatro dias de lagartixagem absoluta, depois de tanto vai-e-vem. Praticamos muito body-sourfing, também conhecido como pegar jacaré, tomamos muito lassi e foi o lugar onde tivemos melhor acesso a internet na Índia, com wi-fi em todos os bares e restaurantes à beira dos penhascos.

Partimos de Varkala a bordo de um trem noturno, na noite de Natal, rumo à Madurai, que fica no estado de Tamil Nadu, nossa última parada no sul da Índia. O trem estava lotadão, e pegamos os últimos dois lugares, no famoso “sleeper”, junto com o povão. Já falarei sobre isso no próximo post :)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Bella Homestay e os Backwaters de Kerala

Este post talvez soe um pouco propagandístico. E é. Me desculpem, mas não perderei a oportunidade de registrar a minha gratidão ao querido casal indo-polonês, Bijou e Natasha, e a seu cãozinho Jack, por me fazerem sentir realmente como se estivesse na minha própria casa, na Índia.

Sim, graças à Lucas, o cineasta mineiro que conhecemos em Cochin, viemos parar na Bella Homestay! E, confome Lucas nos disse com muito entusiasmo e veemência, foi o lugar mais limpo, cheiroso, aconchegante, de bom gosto e, ainda por cima, barato, pelo que oferece, que encontramos na Índia! O quarto de casal saiu $ 600 rúpias (ou seja, $ 60 pesos argentinos, mais ou menos).

Nosso plano incial, como de costume em viagens como esta, mudou por completo em Kerala. Inicialmente, nossa idéia era apenas passar um dia por Alepey, para já alugar um House Boat (casa-barco, sem tirar nem por!), com o objetivo de navegar pelos famosos backwaters da região, até a cidade de Quilom. Abaixo, foto de um House Boat.

Parêntesis importante: o que são os backwaters!? Águas de trás, literalmente: segundo Bijou, nosso anfitrião em Alepey, se chamam assim por causa dos extensos rios e canais que margeiam a costa, que estão acima do nível do mar. São quilômetros e quilômetros de lagos, lagoas, riachos formando canais que se interconectam, como os igarapés do Amazonas, trazendo vida e sustento para as populações ribeirinhas, que cultivam arroz, coco, banana e pesca.



Pois é, fecho o parêntesis e volto ao nosso plano inicial: foi diretamente pras cucuias depois da Bella Homestay. Descartamos o house boat, pois, apesar de parecer atraente dormir com o céu estrelado numa casa-barco, a temporada alta, o excesso de barcos e motores sujando os rios, para lá e para cá, não nos pareceu tão tentador, estando aí e vendo como tudo funcionava. Ao invés disso, preferimos o serviço de um canoeiro roots, indicado por Bijou, e fomos percorrer os backwaters a bordo de uma canoa, ao estilo National Geographic, junto com outros hóspedes da pousada, com quem terminamos estabelecendo uma sintonia e trocamos de dicas de viagem, o que foi bem interessante. A foto do nosso grupo!

O nosso canoeiro era morador dos backwaters e, no pacote canoístico, incluía: café-da-manhã típico de Kerala, na casa dele, e almoço especial, na casa do pai, com direito a um passeio pela vizinhança e um tour por algumas lagoas maiores.

Houve um momento em que estávamos com muito calor e, cercados por tanta água, foi inevitável o desejo de dar um mergulho. Gaba, afoito como é, não perdeu tempo e pediu uma recomendação de lugar para tomar banho e, mesmo com o imaginário de alguns povoado de piranhas (que, com certeza, não havia ali), crocodilos (opa, dependendo da lagoa, podem até aparecer, mas não naquela) e amebas (essas, sim, deveriam habitar toda a região, com tranquilidade), tapamos a boca e demos um mergulho delicioso nos backwaters de Kerala, um atrás do outro (Gaba foi o primeiro, óbvio). Aventura!!!


Aventura tão eletrizante quanto esta, só mesmo conseguir não ser importunada usando biquini nas praias indianas. Esse é realmente um abismo cultural muito difícil e profundo. A Índia, apesar de estar cercada por águas, e de ter um Oceano com o seu nome, não tem cultura de praia. A maioria das mulheres não sabe nadar e grande parte dos homens tampouco!

A possibilidade de ver uma indiana em traje de banho, seja ela muçulmana, hindu, católica ou qualquer outra opção religiosa. é quase nula. Isso é tão chocante para nosotros quanto para eles ver tanta carne de mulher exposta ao ar livre. É bizarro expressá-lo assim, mas foi isso que eu senti ao ser “escaneada”, quando decidi tomar um banho de mar na praia de Marari, supostamente um balneário ocidental perto de Alepey.

Por isso mesmo, as chamadas praias de gringo na Índia terminam sendo um pólo de atração para alguns indianos, pois, para eles, é como ir ver mulher “pelada” grátis, dado o contexto cultural de tanta repressão e tanto recalque com relação ao corpo, seja masculino ou principalmente feminino. Mas isso é assunto para o próximo post!

Quero terminar este agradecendo (mais uma vez) a Bijou, Natasha e Jack pela hospitalidade, e a Lucas pela recomendação. E também com o slogan-mantra: se você for à Alepey, fique na Bella Homestay :)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Kerala Comunista

Chegar ao Estado de Kerala representou um certo alívio para nós, depois de tanto deslocamento que fizemos em Karnataka. Respirar a maresia, para mim, que sou soteropolitana, foi fundamental! De Madikeri, tomamos um busu noturno, que desfilou pelas curvas sinuosas da estrada das montanhas até a costa, chegando à cidade de Mangalore. Desta última, não posso dizer muita coisa, apenas que o hotel indicado pela Lonely Planet era bem meia-boca. As roupas de cama estavam ok, mas a limpeza dos azulejos do bannheiro e do piso, eu prefiro nem comentar. Como partíamos na manhã seguinte rumo à Cochin, deu par a safar.

Dormimos 5 horas, apenas, e pegamos um trem que vai pela costa, de Karnaka a Kerala...um prazer esse trem! A paisagem dos coqueirais e vilas de pescadores me fizeram sentir ainda mais em casa. A atmosfera salina de beira-de-praia fez um bem danado para meu corpitcho, já meio entrevado de tanto carregar o mochilão, hehe.

Fotos: Pescadores em Cochin e minha cara de felicidade com o autêntico thali de Kerala.


Uma surpresa: Kerala é um estado comunista democrático. Uma contradição e exceção, por cierto, mas que me impressionou demais. Pude notar como o comunismo escolhido nas urnas, pelo menos sob um ponto de vista panorâmico, como foi o meu, funciona bem. Nós passamos, no total, por quatro estados no sul da Índia: Maharashtra, Karnataka, Tamil Nadu e Kerala. Dos quatro, onde menos vi mendicância e miséria exposta foi no último. Coincidência? Parece que não.

Me inteirei na viagem que a menor taxa de analfabetismo da Índia é a de Kerala. É também o estado com melhor índice de bem-estar social, e isso realmente se nota. Foi o lugar onde menos tivemos que barganhar com os motoristas dos auto-rickshaws, pois, na maioria dos lugares, os valores já estavam pré-fixados. Foi também onde vimos as pessoas mais relaxadas e receptivas, no comércio dos grandes centros turísticos. Obviamente os comerciantes queriam vender seu peixe, mas jamais perdiam o sorriso, ao receber um não como resposta. Tampouco insistiam tanto.

Por outro lado, foi também em Kerala onde vimos mais propaganda política por metro quadrado! Não sei se justo passamos por lá no período eleitoral, mas a cara de Lenin, Marx e Trotski estavam em quase toda esquina. Ah, y como no, o rosto de um comunista argentino muy conocido também não podia faltar, Che! O mais incrível (e de certa forma contraditório) foi ver a cara do Che Guevara estampada ao lado da de Gandhi. Ironia?

Em Cochin tivemos a experiência incrível de meditar com os ragas da manhã. Para quem não sabe, ragas são as distintas melodias que representam cada momento do dia. Portanto, existem muitos ragas, cada um com sua propriedade e significado, digamos assim. Também em Cochin vi uma apresentação do Kathakali dance, uma dança típica do sul da Índia, na qual somente a maquiagem dos atores demora uma hora e meia. Muito interessante, cada gesto (mudrá) e passo comunicam algo e vão tecendo a história, no Kathakali.

Foi também em Cochin onde visitamos uma das mais antigas sinagogas da Índia! E onde eu pude perceber o quanto aquí realmente está incorporado o conceito do ecumenismo. Vi com meus próprios olhos uma hindu, que visitava a sinagoga como turista, fazer, diante da estrela de David, a mesma reverência que costuma fazer no seu próprio templo, diante de Shiva, Ganesha ou Krishna. E me emocionei ao perceber que, para os indianos, sobretudo os que incorporaram os ensinamentos de Gandhi, a grande maioria dos que conheci, felizmente, Deus é um só. Eles vivem isso no seu cotidiano, e é lindo de ver!

Terminamos a Cochin experience conhecendo uma família muito querida de brasileiros, cineastas de Minas Gerais, que nos recomendou uma pousada maravilhosa em Alepey, ponto de partida para os backwaters. Foi uma bênção escutar português na Índia, conhecido essa família tão legal e haver recebido essas dicas! No próximo post falarei um pouco mais sobre a nossa vivência nos famosos backaters de Kerala e da pousada mais limpa, linda, cheirosa, confortável, aconchegante e barata (por tudo que oferece) que ficamos no sul da Índia!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O monge e o lago

Que a Índia abriga muitos países em um, disso eu já desconfiava. Mas viver a experiência é outra coisa bem diferente! Só o fato de haver tantos idiomas e dialetos em um só país já é algo pouco comum. Imagine um pedaço de um país dentro de outro?

Pois é, Bylakkupe é isso aí: um pedacinho do Tibet dentro da Índia. Os tibetanos conseguiram isso, num momento de extrema turbulência histórica, graças à generosidade da então ministra Indira Gandhi. Lá os monges puderam se estabelecer em paz, justo na mesma região onde, muitos séculos antes, foi escolhida pelos coorgs para ser habitada.


O monastério Namdroling, onde foi construído o Golden Temple, ou Templo Dourado, tem uma atmosfera especial e, por alguns instantes, você pode até se confundir e achar que está no Nepal ou no próprio Tibet. Os monges, muitos deles crianças, são bastante responsáveis por essa “onda” de serenidade que impregna o lugar. A abundância de verde dos jardins ao redor do monastério também.

O Golden Temple é aberto a visitas, em um horário determinado. Porém, para ficar hospedado lá e participar das atividades, há que pedir permissão ao Monastério e preencher uma solicitação de visita ao Ministério do Interior da Índia, com pelo menos três meses de antecipação, já que toda a zona está demarcada como território tibetano.

Nós fomos fazer a visita num domingo, portanto havia muita gente circulando, já que o Golden Temple é uma das mais importantes atrações turísticas da região. As três estátuas gigantes no salão principal, que representam três encarnações de Budda, são o maior motivo de tanta peregrinação, e realmente impressionam.

Entretanto, foi num salão menorzinho, em outro edifício, onde encontramos silêncio e recolhimento suficientes para sentar e meditar. De fato, os monges preparam os salões para isso, com almofadinhas redondas. Naquele salão também havia mais estátuas douradas de Buddas, bastante menores, porém também destacáveis. Os monges faziam seus rituais, enquanto alguns poucos turistas entravam para tirar foto.

O silêncio era inspirador naquele respaço, então nos sentamos de frente para as estátuas, fechamos os olhos e pimba! Depois de alguns minutos atenta ao meu “agora”, tive outra espécie de visão, uma experiência muito similar à que vivi quando estava sobrevoando Mumbai, antes de colocar meus pés pela primeira vez na Índia.

Um monge mirim, trajado como aqueles que vi passeando nos jardins do Golden Temple, apareceu para mim. Se sentou na minha frente e me fez uma pergunta bastante objetiva: “como está o seu lago?”

Tive que fazer um esforço para ver o meu lago. Ele estava lá, mas não conseguia ver a cor da água. Tava difícil, pai! Pelo menos no primeiro momento. Depois de algumas tentativas de “ver o meu lago”, respondi ao pequeno monge: “turvo”.

E eu, que já estou começando a me acostumar com essas "aparições", me surpreendi com a resposta dele: “É mesmo, moça? Olhe direito!”. E, definitivamente, pude ver, com muito esforço, que não era o lago que estava turvo, e sim o céu que estava nubladíssimo. Por isso eu não conseguia ver o meu lago com nitidez.

A resposta desse pequeno, que apareceu diretamente do meu imaginário, se assim o leitor preferir, me deixou com a pulga atrás da orelha, mas feliz. E o seu lago, como está? :)