sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O monge e o lago

Que a Índia abriga muitos países em um, disso eu já desconfiava. Mas viver a experiência é outra coisa bem diferente! Só o fato de haver tantos idiomas e dialetos em um só país já é algo pouco comum. Imagine um pedaço de um país dentro de outro?

Pois é, Bylakkupe é isso aí: um pedacinho do Tibet dentro da Índia. Os tibetanos conseguiram isso, num momento de extrema turbulência histórica, graças à generosidade da então ministra Indira Gandhi. Lá os monges puderam se estabelecer em paz, justo na mesma região onde, muitos séculos antes, foi escolhida pelos coorgs para ser habitada.


O monastério Namdroling, onde foi construído o Golden Temple, ou Templo Dourado, tem uma atmosfera especial e, por alguns instantes, você pode até se confundir e achar que está no Nepal ou no próprio Tibet. Os monges, muitos deles crianças, são bastante responsáveis por essa “onda” de serenidade que impregna o lugar. A abundância de verde dos jardins ao redor do monastério também.

O Golden Temple é aberto a visitas, em um horário determinado. Porém, para ficar hospedado lá e participar das atividades, há que pedir permissão ao Monastério e preencher uma solicitação de visita ao Ministério do Interior da Índia, com pelo menos três meses de antecipação, já que toda a zona está demarcada como território tibetano.

Nós fomos fazer a visita num domingo, portanto havia muita gente circulando, já que o Golden Temple é uma das mais importantes atrações turísticas da região. As três estátuas gigantes no salão principal, que representam três encarnações de Budda, são o maior motivo de tanta peregrinação, e realmente impressionam.

Entretanto, foi num salão menorzinho, em outro edifício, onde encontramos silêncio e recolhimento suficientes para sentar e meditar. De fato, os monges preparam os salões para isso, com almofadinhas redondas. Naquele salão também havia mais estátuas douradas de Buddas, bastante menores, porém também destacáveis. Os monges faziam seus rituais, enquanto alguns poucos turistas entravam para tirar foto.

O silêncio era inspirador naquele respaço, então nos sentamos de frente para as estátuas, fechamos os olhos e pimba! Depois de alguns minutos atenta ao meu “agora”, tive outra espécie de visão, uma experiência muito similar à que vivi quando estava sobrevoando Mumbai, antes de colocar meus pés pela primeira vez na Índia.

Um monge mirim, trajado como aqueles que vi passeando nos jardins do Golden Temple, apareceu para mim. Se sentou na minha frente e me fez uma pergunta bastante objetiva: “como está o seu lago?”

Tive que fazer um esforço para ver o meu lago. Ele estava lá, mas não conseguia ver a cor da água. Tava difícil, pai! Pelo menos no primeiro momento. Depois de algumas tentativas de “ver o meu lago”, respondi ao pequeno monge: “turvo”.

E eu, que já estou começando a me acostumar com essas "aparições", me surpreendi com a resposta dele: “É mesmo, moça? Olhe direito!”. E, definitivamente, pude ver, com muito esforço, que não era o lago que estava turvo, e sim o céu que estava nubladíssimo. Por isso eu não conseguia ver o meu lago com nitidez.

A resposta desse pequeno, que apareceu diretamente do meu imaginário, se assim o leitor preferir, me deixou com a pulga atrás da orelha, mas feliz. E o seu lago, como está? :)

4 comentários:

  1. Nossa! esse blog está cada dia melhor.
    além de belas imagens e relatos interessantes, agora tb nos convida à reflexão. Kkkk
    daqui a pouco tá servindo cafezinho tb! ou melhor... chai!
    amiga, já tô sentindo um livro nesse forno. sucesso da bahia!
    bjss

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  2. Tá vendo? A ideia do livro que lancei logo nas primeiras postagens já está no ar...

    :)

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  3. Que experiência maravilhosa! Obrigada por partilhá-la conosco!
    Seu Blog está cada vez melhor! Quero divulgá-lo na página de Lakshmi no Facebook.
    Bjs, bela!
    Ana Liése.

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