Este post tem trilha sonora!
A nossa noite de Natal foi muito sui generis, como todas as demais datas importantes que o calendário marcou, nessa nossa viagem pela Índia. Tínhamos uma passagem partindo de Chennai para Kuala Lumpur (Malásia) e, de lá, para Singapura, no dia 4 de janeiro. Portanto, nos restava pouco mais de 10 dias no sul da Índia e ainda nos faltava conhecer o estado de Tamil Nadu. A temporada de paz total em Kerala havia chegado ao fim, e rumamos para o terra mais drávida da Índia, segundo eles mesmos se autoproclamam.
Para quem não sabe, drávida foi o povo autóctono ou originário da Índia. Eram donos daquelas terras que, posteriormente, foram tão invadidas ao longo da história. Como eram agricultores e não tinham cultura bélica, se supõe que foram migrando do norte, no Vale do Indo, para o sul, devido às secas e numerosas invasões sofridas ao longo de milênios. Por isso, talvez, pude sentir, nessa parte do país, uma atmosfera tão shivaísta.
Na foto: reverência à Nandi, o touro de Shiva
Shiva é o senhor do Yoga e, na mitologia, um dos deuses que mais está vinculado ao povo drávida. Isso porque a origem primitiva do Yoga se remonta a uma época muito remota, anterior inclusive ao hinduísmo. Por isso, quase sempre Shiva é representado como um homem de pele azul. Entre outras razões, é porque os drávidas, de tão pretinhos, tinham o tom da pele azulado. Realmente pude ver os descendentes dos drávidas andando pelas ruas, mas não somente em Tamil Nadu, como em todo sul da Índia.
Voltando ao trem, conseguimos as duas últimas passagens, que só restavam na classe sleeper, e partimos na noite de 24/12 para a cidade de Madurai. Sleeper é o vagão que possui seis beliches, portanto, viajar nele é uma espécie de loteria. Se os seus demais companheiros de jornada noturna forem silenciosos e bacanas, massa. Se não, é dureza! No nosso caso, demos sorte de novo, gracias a la madre eterna, e viajamos junto com uma família muçulmana muito legal.
Através deles, ficamos sabendo que, mesmo sendo de religiões distintas, muitos indianos hindus ou muçulmanos comemoravam o Natal e o ano novo cristãos, por exemplo. Se reuniam para jantar juntos e até trocavam presentes! E eu achando que ninguém dava bola para Natal na Índia, estava redondamente enganada. Em cidades como Madurai e Chennai, que são bastante hindus, não faltaram referências natalinas. Também nos apresentaram a um hit de Tamil Nadu, que já vínhamos escutando desde o início da viagem: Why this Kolaveri Di. O cantor, na verdade, ator, que gravou a música para um filme que ainda nem foi lançado, já é uma estrela pop absoluta em toda a Índia.
Escutem o hit Tamil aqui: Why this Kolaveri Di
As principais atrações de Madurai são o Meenakshi temple, um templo tipicamente hindu e gigantesco, e o Museu de Gandhi. Sinceramente, chegar em Madurai foi um choque, saindo de Kerala. Por isso, digo, e repito, que o comunismo keralense funciona. Em Tamil Nadu, me lembrei novamente que estava na Índia do senso comum: um país extremamente desigual e caótico. Infelizmente, é compreensível e notável, em muitos lugares, a razão do país terminar se encaixando nesse estereótipo. Muito lixo nas ruas, muita mendicância e um trânsito infernal e barulhento, que me fez lembrar Hassan.
Não quero sero ser mal-agradecida com Tamil Nadu, afinal, como já verão, tive lindas experiências no Estado. Porém, realmente, Madurai não foi um lugar no qual me sentisse à vontade na Índia. Para começar, estava tudo lotado! Tá bom, chegamos lá no dia 25/12. Que lugar turístico do mundo está tranquilo justo esse dia? Nenhum, né. Mas não foi só a cheia que me incomodou. O descaso do Governo, a olhos vistos, a esculhambação da cidade, a sujeira, a miséria e uma certa truculência dos funcionários do templo Meenakshi.
Fotos de esculturas no interior do Meenakshi Temple
Tivemos um episódio cômico, quando fui novamente confundida como hindu, no interior do Meenakshi. Havia algumas partes do templo nas quais só se permitia a entrada de hindus. Eu e Gaba não reparamos numa dessas placas de aviso que proibia a entrada de ocidentais, e acompanhamos a multidão que se dirigia ao altar de Shiva. Quem está lendo o blog do início já deve ter percebido que somos shivaístas de carteirinha.
Porém, Gaba, com a cara de gringo que tem, não negava ser penetra e foi barrado. E eu? Não! Entretanto, minha cara-de-pau não foi suficiente. Não sei se por culpa, cautela, ou as duas coisas juntas, decidi retroceder, para evitar constrangimentos, pois estava com uma mochila ocidental que dava pinta e poderia me fazer parecer suspeita.
Comemos muito bem em Madurai, vimos esculturas incríveis no templo Meenakshi e tivemos uma aula de história recente da Índia, no Museu de Gandhi. Conhecemos melhor a luta dos satyagrahins, que não foi um movimento somente de Gandhi, mas de muitos indianos, que também deram a vida pela construção da República da Índia. Ficamos sabendo, também, que foi em Madurai que Gandhi adotou o khadi pela primeira vez e, depois disso, essa passou a ser a sua vestimenta e o símbolo da resistência indiana contra o colonialismo inglês.
Foto de Gandhi, vestido com o khadi, e o tear, que terminou sendo o símbolo da bandeira da Índia
Dois dias em Madurai foram suficientes e, de lá, picamos a mula a bordo de um busú noturno rumo a Pondicherry, uma ex-colônia francesa no sul da Índia, onde passei o aniversário mais louco da minha vida! Aguardem o próximo post :).
em Shiva! ;) bjs, querida
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