terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma diferente muito igual

Depois da recepção calorosa de bienvenida que recebi das nuvens, aterrissamos em Mumbai. Ao sair do avião, já senti que a Índia me penetrava pelo olfato: imediatamente minhas narinas foram invadidas por um cheiro forte de humidade de carpete (não entendo como usam carpete no aeroporto de um lugar tão húmido!). Some-se a isso um ar-condicionado antigo, que não dava conta da quantidade de gente que desembarcava, e bem-vindos à festa dos ácaros, hehe.

A famosa fila indiana no pátio, rumo ao controle migratório, deu lugar a um amontoado caótico de pessoas, que iam se infilrando sem pedir licença, para então formarem uma fila mais ou menos organizada mais na frente, muito similar a um caracol humano gigante. Nunca vi tanta gente desembarcando, nem no aeroporto da Cidade do México!

Enquanto esperávamos na fila, percebi que alguns indianos típicos me olhavam dos pés à cabeça. Pouco tempo depois, entendi por que: eles não compreendem como um ser da mesma tribo deles se vista diferente, sobretudo sendo mulher. Fui abordada várias vezes pelo olhar de estranheza dos meus irmãos de fenotipo, todos com a mesma pergunta subentendida, pela forma da mirada: cadê o seu sari, moça?

Tá bom, Mumbai é uma capital bastante cosmopolita. De fato, no nosso voo, vi pelo menos duas famílias indianas (da alta casta, provavelmente) que falavam somente em inglês e se vestiam a la ocidental way. Porém, essa galera evidentemente não faz parte da maioria da população do país. E a minha viagem não é de Maharaja, babies: apesar de termos nos hospedado em Colaba, um bairro bastante burguês em Mumbai, eu faço questão de circular por todos os lugares, inclusive onde o povão circula. E as pessoas que circulam nas ruas a pé e viajam em trem comum são, exatamente, as que mais estranharam o meu look.

Por falar em trem comum: que experiência! Aliás, seria mais adequado eu fazer um post especial somente para contar como foi viajar num trem na classe popular, aqui na Índia. In-crí-vel! Na próxima viagem que fizer, tirarei fotos e somarei experiências para um post sobre isso ;)

Voltando à Mumbai, me senti em casa, apesar dos ácaros, da humidade, do inverno com calor de verão (isso é a CARA da minha Bahia, pai), do trânsito caótico às 2 da manhã, do cheiro forte de xixi nas ruas, inclusive nos bairros nobres (só na Barra tem um fedorzinho igual). Também senti familiaridade com os aromas e sabores das especiarias, já que há muito tempo que venho cozinhando como eles. De ver em todo canto alguém tomando chai, das cores e brilhos dos saris, bindis e penduricalhos das indianas (eu vou acabar voltando com um sari na mochila, hehe). Senti até uma certa ternura pelos outdoors mega-ultra-kitsh dos filmes Bollywoody competindo com a Hollywoodiana Crepúsculo (até aqui!), pirei ao ver as pessoas e algumas vacas disputando o asfalto com os carros e autorickshaws, uma espécie de carro-moto (já postarei alguma foto aqui). A calçada existe, mas está quase toda ocupada pelo comércio dos ambulantes. Me senti na lavagem do Bonfim.

Por fim, quase me irritei (fui embora antes disso) com a poluição sonora fabricada pelas buzinas. Quase todos os veículos imagináveis, até as bicicletas, buzinam sem parar. Que semáforo qual nada, não existe trânsito sem buzina neste país!

Dei bye-bye a Mumbai depois de um passeio pelas suas ruas com um guia, onde rapidamente conhecemos um pouco da loucura adorável desta cidade (país? Hehe). Visitamos um templo jaina e, pela primeira vez, senti uma energia forte e linda em um lugar de culto, onde transitam muitos fiéis. Nunca pude sentir esse mesmo astral em qualquer igreja a qual pisei na vida, sinceramente.

Os jainas levam ao extremo a disciplina do ahimsa (ou não violência), a ponto de somente saírem com um pano tapando a boca, para evitar ingerir qualquer germe que passeie pelo ar! De muito ahimsa também viveu Gandhi, o Mahatma (grande alma) da Índia. Visitamos o Museu que foi a casa onde ele viveu, muito impressionante como uma simples pessoa conseguiu a independência do país aplicando somente duas normas éticas do hinduísmo: ahimsa (não-violência) e satya (autenticidade).

Gandhi, assim como Indian Raiways, também mereceria um post à parte, mas terei que me esmerar para isso, e ando meio mareada com a quantidade de informação que recebo por dia! No entanto, nossa jornada apenas começou na capital de Maharashtra. Meu próximo destino (onde estou agora): Hampi, cidade tranquila, um sítio arqueológico que é uma mistura de sertão com litoral. Aqui também fui confundida e até fui batizada com um nome em hindi: Kushi, que significa hapiness. No próximo post eu conto mais sobre Hampi e minha madrinha J

Na foto: eu e minha cara de felicidade com o meu brunch tipicamente indiano. Tô comendo super condimentado todos os dias, feliz da vida! Piriri? Para quem está acostumada com vatapá e acarajé, é nenhuma :)

4 comentários:

  1. Delícia de post, altamente imaginável! Quero ver muitas fotos! Aguardando o próximo passo!

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  2. Cla, estamos acompanhando suas experiências contadas com riqueza de detalher, emoções e seu incomparável espirituoso humor!

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  3. Ju, Carol: obrigada por nos acompanhar! Tah sendo dificil atualizar o blog com a velocidade dos acontecimentos, mas a gente chega lah, hehe. Beijo!

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  4. Estou amando seus textos Clá! Dá pra quase me sentir aí...Adorei " irmãos de fenótipo", hehe!
    beijo nos 2!

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