| Angkor Wat, Camboja |
Depois da temporada praieira no sul tailandês, estivemos uns dias em Bangkok tentando definir como continuar nosso itinerário. A verdade é que planejamos muito bem e com antecipação a nossa jornada pelo sul da Índia, mas a passagem pelo sudeste asiático foi a menos organizada de toda a nossa viagem. E, talvez, por essa falta de organização, tivemos alguns sacudões do destino durante nossa estada no turbulento bairro de Kao San Road, em Bangkok, enquanto tentávamos encontrar o rumo da nossa viagem.
Turbulências, sim, mas nada que realmente nos fizesse perder as estribeiras e largar o timão. Como passamos por Bangkok também no retorno da “voltinha” que demos nessa parte da Ásia, deixarei para falar da capital da Tailândia num futuro post.
Depois de muito brincar de quebra-cabeça, compilar informações e tentar, sem sucesso, esticar o calendário, descartamos Myammar e Vietnã do nosso roteiro, com muita pena. Para incluir os dois países, precisávamos, no mínimo, de mais um mês de viagem.
Deu mais dó tirar Myamnar do circuito, pois, de todos, é o país menos turístico, o que, segundo escutamos, confere ao seu povo uma atitude mais autêntica, menos condicionada negativamente. Mas, enfim, chegar lá dá trabalho, por se tratar de uma ditadura que fechou a maioria das fronteiras. E viajar dentro do país também, pela precariedade das suas estradas. Entonces...vamos al Camboja!
Monges budistas nos templos de Angkor
Eis um país que me conquistou, por várias razões, e que eu não tinha nenhuma expectativa! O Camboja me encantou pela beleza e ternura das suas crianças. Aliás, deu pra entender porque Angelina Jolie decidiu ser mãe adotiva depois de passar por ali. Também me impressionou o sincretismo religioso, tão familiar para mim. Só que, no Camboja, o sincretismo é entre o hinduísmo e o budismo que, ao contrário do catolicismo e do candomblé, são religiões bem próximas. Tanto quanto o judaísmo e o cristianismo, pois Buda era hindu, assim como Jesus era judeu. Também admirei o alto astral dos cambojanos, apesar de feridas profundas ainda abertas na memória e na carne de muitos deles.
Partimos de Bangkok de manhã cedinho, a bordo de um trem que nos deixou numa cidade da fronteira, ao meio-dia. Tomamos um caminhão bem parecido a um pau-de-arara (pena que não tiramos foto), porque decidimos pagar menos e ter mais emoção. O veículo nos conduziu até a fronteira propriamente dita, onde fizemos os procedimentos burocráticos de saída da Tailândia e entrada no Camboja.
Primeiro choque: em todos os guias de viagem, tínhamos o dado que o visto para entrada no país custava U$ 20. O valor real do visto, por alguma razão mística e mágica, era de U$ 24. Os magos policiais da fronteira cambojana cobravam propina sem nenhuma cerimônia. Quem ousasse não pagar, poderia chegar a esperar três horas pela liberação do passaporte, enquanto os demais turistas que pagavam o numerário tinham o seu visto em três minutos.
Tivemos a mesma experiência ao cruzar a fronteira de Laos, mas lá fomos mais astutos: pedimos recibo pelos dólares “extra” que nos fizeram pagar. O mais incrível é que: eles nos deram! Cena dos próximos capítulos...
Na fila do visto, “pegamos buena-onda” com dois rapazes italianos que cruzavam a fronteira conosco, então decidimos alugar todos juntos um táxi até Siem Reap, a segunda cidade mais importante do Camboja, que serve de base para visitação dos templos de Angkor Wat. Nossa estada em Camboja, na verdade, se resumiu a Siem Reap e o Angkor Wat, pois o tempo não permitiu visitar mais lugares. Eu bem que teria ido às praias deles, que são lindas, mas Gaba terminou me convencendo a ir para Laos. E foi ótimo!
Segundo choque: o trânsito no Camboja é quase tão caótico quanto na Índia. A diferença é que eles andam muito de moto, levando famílias inteiras a bordo. Vimos até seis pessoas, incluindo bebês de colo, se equilibrando em cima de uma moto. Vimos também crianças pequenas, entre dois e quatro anos, andando de moto, na garupa, sem nenhuma proteção, apenas agarrados da roupa das mães, como macaquinhos.
Pouco a pouco, fomos nos dando conta que estávamos ingressando num país com um passado de grandiosidade e esplendor, porém extremamente pobre e golpeado por personagens controversos de sua história recente. O principal deles foi o famigerado Pol Pot, ou Khmer Rouge, um maoísta que, entre 1975 e 1979, foi responsável por uma das maiores chacinas do país, que vitimou nada menos que 2 milhões de cambojanos Ainda hoje é possível ver as vítimas de Pol Pot, muitos deles mutilados que fazem parte de grupos de música, e se apresentam nas entradas dos templos de Angkor.
Contraditório ver como um país que, entre os séculos VIII e XIII, no período medieval, foi o berço cultural do Sudeste Asiático, com uma cultura riquíssima e reinados que abarcavam quase toda a região e, hoje, é a nação mais pobre e golpeada entre todas as demais. Por outro lado, graças a esse passado grandioso, o Camboja tem uma das suas principais entradas de renda. O turismo que se desenvolveu em torno dos templos de Angkor é impressionante e a entrada não é nada barata. No entanto, vale a pena, sobretudo para quem tem interesse nas religiões hindu e/ou budista.
Rostos de Buda, Templo Bayon, Angkor Wat
Em grande parte dos templos, vimos lingas (símbolo fálico, que representa a fertilidade) de Shiva ao lado de Budas. De fato, depois vimos em outros lugares da Ásia que essa mistura de referências não é incomum. Alguns hindus inclusive consideram Buda uma reencarnação de Vishnu!
Eis o Shivalinga!
O Camboja e sua terra vermelha encheram meu coração de ternura e, como tem acontecido em alguns outros lugares ao longo dessa nossa jornada pela Ásia, tive dos meus dèja vus e reencontrei pedacinhos de mim ali. Só que, ao contrário de dona Angelina, não trouxe nenhum deles comigo fisicamente, embora tenha ficado com vontade ;)
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