quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Our Singapore experience: luz e sombra do diamante da Ásia

Este post eu dedico à Santi, nosso querido amigo que nos hospedou no diamante do sudeste asiático e também nos fez sentir em casa. Gracias, Santi :)

Partimos de Chennai para Kuala Lumpur, no dia 4 de janeiro. Não posso falar grandes coisas da capital da Malásia, apenas do aeroporto, que foi onde, pela primeira vez, depois de um mês na Índia, pude colocar uma camisetinha de alça. Isso foi um grande alívio! Pude perceber que se trata de um lugar com bastante influência muçulmana, pois vimos muitas mulheres, de traços asiáticos, usando véu. No entanto, ao contrário da Índia, nenhuma delas se choca ao ver uma mulher com os ombros ou as pernas de fora. No aeroporto, já se percebia que estão muito mais acostumados com a vestimenta ocidental. De fato, depois vimos, em outros lugares do sudeste asiático, que a roupa usada pelas mulheres não difere tanto da que se usa no Brasil, sobretudo em lugares tropicais.

De Kuala Lumpur, tomamos outro voo para Singapura, onde combinamos com nosso amigo Santi de passar uns dias na casa dele. Se nota que, nesta parte da viagem, tomamos um descanso de guest houses e pousadas, graças aos nossos amigos espalhados pelo mundo! Numa jornada de quatro meses, ter um lugar familiar para ficar, de vez em quando, é mais que recomendável: é fundamental.

Nós com Santi, nosso amigo mexicano que já morou no mundo inteiro, inclusive em Buenos Aires

Santi não é santo, mas fez as vezes de nosso anjo-da-guarda em Singapura. Nos ofereceu a cama dele, que era de casal, e foi dormir no quarto de hóspedes. Nos deu algumas dicas de lugares a conhecer na cidade, nos levou para passear na night singaporense e ainda nos ofereceu consultoria para a compra do meu primeiro celular andróide. Singapura é famosa na Ásia pelos shoppings de eletrônicos. Antes era o lugar, junto com Taiwan, onde grande parte dos aparelhos era fabricada ou montada, mas há um tempinho perdeu o posto para a China, obviamente.

Para descrever Singapura, só mesmo me rementendo à sua história, pois é um lugar muuuuito particular dentro da Ásia. Singapura é uma cidade-Estado, uma pequena ilha tropical, localizada a uns poucos graus acima da linha do Equador, só que na banda asiática do planeta. A ilha, ironicamente, tem forma de diamante, o que coincide, de certa maneira, com o karma do lugar. Há pouco mais de 40 anos, o país era uma colônia de pescadores, um pântano subdesenvolvido, cheio de problemas, como os demais países das redondezas. A população era formada majoritariamente por povos indígenas e, de fato, no porto há um monumento que se remete a essa origem.

O povo originário de Singapura, em uma escultura no centro comercial da cidade


Singapura foi colônia inglesa durante um tempo, e, por ser um porto bastante bem localizado, se transformou no principal ponto de apoio, dentro do sudeste asiático, da Cia das Índias Ocidentais, famosa por varrer as riquezas da Índia e, consequentemente, ter sido uma das patrocinadoras da revolução Industrial na Inglaterra.

O fato é que depois da Segunda Guerra Mundial, Singapura, que fazia parte da Malásia, se tornou independente, graças a uma manobra política articulada por Lee Kuan Yew, um estrategista altamente hábil que, entre 1959 e os anos atuais, transformou o pântano cheio de problemas, que costumava ser a Singapura, em um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo, com índices sociais elevadíssimos e corrupção praticamente nula, pero...

Rai-ai. Nessa vida, tudo tem seu preço. Para que o país se transformasse tão rapidamente assim, foi necessário um acelerador evolutivo chamado: regime semi-ditatorial. A repressão em Singapura é diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento do lugar, e um estrangeiro se dá conta disso antes mesmo de chegar. O formulário de entrada tem um aviso, em letras garrafais, que a entrada com drogas na Singapura é punida, nada mais, nada menos, com a pena de morte!
O símbolo de Singapura: a roda gigante (ou seria do karma?)


O interessante é que eu e Gaba devemos ter, muito provavelmente, um guia espiritual que gosta de nos mostrar, ainda que sutilmente, o lado B de tudo que andamos vendo por estas bandas. A sombra do diamante do sudeste asiático, oculta, talvez, para a maioria dos turistas, foi se mostrar para quem? Senhor Shiva e Dona Kali não brincam em serviço. Se o que queríamos era autoconhecimento no nosso menu, nossos chefs nos têm servido disso em abundância. Voilá! Tudo que está fora é igual a tudo que está dentro...

Eu e Gaba, posando em um dos cartões-postais do país diamantino

Um primeira amostra de visão panorâmica da sombra de Singapura se deu num shopping de eletrônicos, onde fazíamos uma pesquisa de preços para comprar uma câmera digital. Estávamos num café, acessando internet e, de repente, começamos a escutar uns gritos. Olhamos para trás, os gritos vinham de uma joalheria próxima à cafeteria. Havia uma senhora com traços asiáticos, muito bem vestida, que gritava pedindo socorro, em vários idiomas. Ela estava sendo imobilizada e algemada por nada menos que três policiais, que só faltaram amordaçá-la, para que não chamasse a atenção dos demais consumidores. Enquanto isso, um quarto policial se encarregava de mandar os transeuntes se afastarem do local, e ainda pedia que evitássemos olhar a cena!

Pouquíssimos minutos depois, deram um jeito de deixar o local rapidamente, por uma das saídas de emergência, e tudo voltou a ser como antes, no quartel de Abrantes. As caras dos vendedores da joalheria era de paisagem. Os transeuntes e demais funcionários do lugar se portavam simplesmente como se nada tivesse acontecido.

Cena dois: estávamos nesse mesmo café (no mesmo dia!) e um senhor se aproximou. Se notava que era um popular, seguramente descendente dos antigos habitantes do diamante, pois parecia um índio do amazonas. Veio com um olhar manso e risonho, não sei se para oferecer algo, jamais saberemos. Apenas escutamos uma palavra dele: “hello!”. Foi o suficiente para um guardinha aparecer, do nada, e mandar o senhor tocar violão na rua do balão.

Cena três: estávamos no metrô, que, na Singapura, é à prova de suicídio! Há umas portas de segurança na estação, que separa os passageiros dos trilhos, que só se abrem quando o metrô pára. Impossível ser atropelado por um metrô na Singapura. Enfim, era proibido beber água (eu disse beber água! Fumar, nem mesmo nas ruas da cidade!) dentro da estação de metrô. Uma vez que você passa pela "borboleta" que dá acesso aos trens, não pode consumir líquidos nem sólidos.

Eu esperando o metrô à prova de suicídio, depois do guardinha me dar um carão por causa de uma garrafinha de água


Ah, bom, mas eu não sabia. Foi só eu tirar a garrafinha da mochila que, imediatamente (não sei como eles conseguem vir tão rápido!), apareceu um guardinha para me dar o pito, mandando guardar a água imediatamente, com uma autoridade imperativa e veloz que poucas vezes pude presenciar no Brasil.

A Singapura é uma República Parlamentarista e democrática, supostamente. Porém, segundo Santi nos comentou, o voto não é secreto. Consequentemente, o mesmo partido político vem ganhando as eleições desde que a "democracia" foi instaurada. E, segundo a wikipédia nos informou, os membros dos partidos de oposição são nada sutilmente perseguidos, entonces...vai encarar?

Apesar de toda a sombra, também pudemos ver a luz do diamante do sudeste asiático em vários momentos: no urbanismo inspirado no feng shui (sim, até os apartamentos da COAB singapurense são chiquérrimos, super ventilados e pensados para que a energia da casa flua. Acreditem, pois eu fiquei hospedada em um deles); nas ruas limpas, com passeios espaçosos, praças e ambientes públicos pensados para que o pedestre desfrute da cidade; na segurança absoluta nas ruas do país; no sistema de transporte urbano, barato, que funciona. E tantas outras luzes inspiradoras.

O exemplo de Singapura nos mostra que, um país tropical pode ser pensado para que funcione bem, sem corrupção, sem esculhambação. Sim, podemos seguir o bom exemplo deles, sem levar de brinde a ultra-repressão que esta incluída no pacote. Como, pai? Talvez nos leve mais tempo chegar a esse nível de desenvolvimento, contando com apenas com a abertura de consciência para a cidadania, mas eu prefiro, sinceramente, transmutar as nossas mazelas paulatinamente, ao som da marcha lenta, do que reprimi-las. Já sabemos do que uma sombra oculta e reprimida é capaz de fazer por um país.

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