sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Somewhere over the raimbow...Pondicherry, Auroville e o Mágico de Oz

Seguramente muitos aqui devem se lembrar da história do Mágico de Oz. Doroty, a protagonista, era uma menina camponesa, que vivia sonhando com um lugar fantástico além do arco-íris, com um pote de ouro e outras maravilhas mais habitando esse somewhere longínquo e...fantasioso!

Meu momento Doroty, em Auroville. Se bem a estrada não era de tijolos amarelos, encontrei um globo de ouro, depois do arco-íris! Muito melhor que um pote, né não? Hehe

Quem de nós não teve, uma ou outra vez na vida, o seu momento Doroty? Um belo dia, como na fábula, nos aparece um pesadelo, um furacão, que nos obriga a enfrentar os nossos fantasmas. Nesse ínterim, podemos ter a sorte de encontrar, como Doroty, companheiros de jornada. No caso dela, o leão covarde, o homem de lata sem coração e o espantalho sem cérebro. No meu caso e no de Gaba, uma russa, um alemão e uma eslovena.

E vamos todos juntos em busca de um mestre, o famoso Mágico de Oz, que, no fim das contas, só nos faz reconhecer que aquele lugar tão sonhado, além do arco-íris; as habilidades almejadas, e até mesmo o nosso sonho perdido, estiveram o tempo inteiro ao nosso alcance, bem embaixo do nosso nariz. “Não há lugar como a nossa casa” é o bordão e a moral da história de Doroty, avatar absoluto do meu aniversário número 36.

Chegamos em Pondicherry e ficamos impressionados, pois encontramos uma espécie de vila francesa no meio da Índia. Não toda a cidade, mas o bairro próximo à orla é todo francês: os nomes das ruas, o comércio, a arquitetura de algumas casas e edifícios e até o passeio! Nota: na Índia, as pessoas andam no meio da rua e os passeios, quando existem, são ocupados pelos comerciantes.

Nos hospedamos numa guesthouse na rue La Bordonnais, de um francês que veio morar na Índia há muitos anos. Não vou mencionar nem o nome do senhor, nem a guesthouse, pois nossa experiência lá foi um pouco traumática. Mas, no final, deu tudo certo, como já verão.

De Pondicherry, fomos visitar a cidade shivaísta de Chidambaram, onde, no caminho, cochilei no busu, e tive mais uma das minhas visões: vi um Shiva Nataraja gigante na minha frente, dançando. E senti, como em Hampi, que estava me aproximando de um território Shivaísta. Chidambaram tem um grande templo dedicado à Shiva Nataraja e foi uma emoção grande ver tantos devotos de Shiva reunidos.

Imagens de Chidambaram, a terra de Shiva Nararaja


Devotos de Kartikeya, o Deus da guerra. Poucos o conhecem, mas ele foi o segundo filho de Shiva e é irmão de Ganesha

Também em Pondicherry conhecemos o Aurobindo Ashram e um pouco mais da história e proposta desse grande mestre de Yoga, que teve ao seu lado uma mulher retada. Uma francesa chamada carinhosamente de Mother pelos discípulos. Ao contrário do que muitos pensam, foi a Mother, e não Aurobindo, a idealizadora e fundadora da comunidade Auroville, que existe desde o fim dos anos 60, a mais ou menos 10 km de Pondicherry.

Auroville é uma realização que contou e ainda conta com o apoio de entidades internacionais e de muitas doações, e tem como objetivo, segundo a minha percepção, enraizar o ideal de Aurobindo, que, em poucas palavras, seria fazer da vida um sádhana ou prática de Yoga. E isso inclui: vida em família, escola dos filhos, trabalho, lazer, esportes, cultura, etc. Por isso é chamado Yoga Integral. O projeto Auroville continua firme até hoje, tem um impacto social importante e congrega habitantes, ou aurovileanos, de todas as nações, que vivem na e da comunidade.

Fotos da árvore que fica no centro geográfico de Auroville e, abaixo, do centro de visitantes


Através do contato de nossos amigos Cintia Sento Sé e Atílio Baroni, que tiveram uma experiência muito intensa, de dois meses, em Auroville, em 2010, fomos conhecer Mari, uma aurovileana brasileira, que nos recebeu superbem e tinha a intenção de nos mostrar a comunidade e o famoso Matrimandir, uma estrutura circular dourada que é o símbolo de Auroville. Dentro da estrutura, há uma esfera de cristal de quartzo gigante, que recebe a luz solar diariamente. O Matrimandir é o centro de meditação de Auroville e também motivo de curiosidade, visitas, e também de fotos ridículas, hehe.




Infelizmente só pudemos conhecer o Matrimandir por fora, pois Mari, nossa anfitriã, tinha um compromisso e nos alertou que, naquele dia, estaria chegando um ciclone em Pondicherry, portanto talvez o Matrimandir fechasse em algum momento para a visitação. Oi? Cuma? Ciclone?

Como diria o jumento dos Saltimbancos, primeira lição do dia: na Ásia, fique de olho na previsão do tempo e nos alertas de tsunami, ciclone, terremotos e demais. Não vacile com isso, pois toda a região é muito vulnerável. Você não veio aqui para ter uma visão do apocalipse, correto?

Pois bem, assustados com o prognóstico, depois de ver o Matrimandir por fora, encurtamos nossa visita a Auroville, e voltamos para Pondicherry, para a guesthouse do francês, já com as primeiras gotas de chuva. Mais tarde, na madrugada do dia 30/12, meu aniversário, essas gotitas se transformaram num ciclone violento.

Ainda na tarde do dia 29/12, o vento já dava o ar da sua graça, e mostrava que havia chegado para ficar, e que não nos deixaria dormir em paz. A pousada estava quase cheia e o nosso quarto era literalmente um puxadinho na laje do francês, que, quando chegamos, nos pareceu simpático, pois era limpo e, como estava no terraço, tinha uma visão panorâmica do bairro. Ocorre que esse puxadinho não foi construído à prova de ciclone...

Pedimos ao dono da pousada para trocar de quarto, mas ele negou, dizendo que havia hóspedes que chegariam naquela noite para passar o ano novo em Pondicherry. Muito mal informado, este senhor nos disse que o ciclone havia mudado de rota (!), e que passaria longe dali. E que, se tivéssemos problemas para dormir, nos alojaria na recepção, como medida de emergência.

Às duas da madrugada do meu aniversário, era impossível dormir. O vento sacudia o teto de chapa com força e fazia um barulho tremendo. Tivemos que colocar tapões no ouvido para tentar dormir. Uma hora e meia depois, o francês tentou nos avisar que podíamos trocar de quarto, pois, obviamente, os hóspedes que chegariam mudaram de opinião, e havia quartos disponíveis. Porém, não escutamos. O barulho era ensurdecedor e estávamos com os tapões. Além disso, jamais saberemos o quanto foi a sua insistência em nos desalojar daquele quarto, que realmente estava em perigo.

Houve um momento que começaram a entrar os primeiros pingos de chuva no quarto. Foi o chamado de Deus para que o desocupássemos. Pegamos apenas uma muda de roupa seca e nossa capa de chuva. Gaba teve o incrível insight de colocar nossos pertences de valor, incluindo o netbook que vos habla, câmera fotográfica, passaporte e nossas mochilas dentro de um armário do quarto. Descemos e batemos na porta do francês, pedindo que nos alojasse em qualquer lugar, menos naquele quarto! E nos ofereceu outro que estava disponível.

No dia seguinte, às oito da manhã, o francês bateu na nossa porta desesperado, para que fôssemos com ele recuperar nossos passaportes, pois o teto do quarto havia voado, e uma das paredes, que obviamente não era de tijolo e cimento, também tinha caído. Já havíamos escutado um barulho horrível e eu pensei que perderíamos nossas coisas, pois o vento ou a água fariam um estrago. Isso só não ocorreu graças ao cuidado de Gaba.

O vento era de uma força que eu nunca vi igual. Foi a vez que mais estive perto de um furacão na vida e, acreditem, não é nada parecido com qualquer ventania que tenham visto no Brasil!

Recuperamos primeiro os pertences de valor e, mais tarde, quando o vento melhorou, o resto das coisas. Tivemos quase nenhum prejuízo, apenas um caderno e algumas anotações perdidas e roupas e sapatos molhados. Já Pondicherry...ficou devastada, inclusive se registraram alguns óbitos em zonas mais vulneráveis, infelizmente.

Imagens de Pondicherry pós-ciclone



Passei o meu aniversário como queria, exatamente como havia dito a Gaba um dia antes do ciclone: quieta, tranquila, sem me deslocar. Queria fazer as unhas, fiz. À luz de velas. Queria comer um espaguete, como no? Foi o prato do dia, já que era o mais prático de fazer. Todos os restaurantes estavam fechados, pois não havia luz na cidade e grande parte do comércio havia sofrido sérios danos. Queria festejar o meu aniversário em petit comite, e assim foi: com Gaba e três hóspedes da Pousada: uma eslovena, um alemão e uma russa, que montaram uma mesinha com frutas, bolachas e um brandy indiano.

Meu aniversário à luz de velas, e os convidados :)



Lakshmi, a elefantona do templo de Pondicherry, que nos deu a bênção de despedida de 2011, na manhã depois do ciclone

Assim festejamos o aniversário mais louco da minha vida. Nesse dia, pude perceber na própria pele o quanto nós, brasileiros (e também argentinos, uruguaios, paraguaios) somos privilegiados, abençoados e protegidos pela natureza que, quando está no comando e com raiva, é feroz e implacável. Não há lugar como a nossa casa!

3 comentários:

  1. Que aniversário bombástico heim clá?! Ainda bem que td terminou bem...
    um beijo

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  2. menina, que babado!
    que bom que o final foi feliz :)
    estou adorando suas aventuras, mas prefiro com menos vento, por favor!!! rsrsrsrs

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  3. Oi, Clarice! Parabéns pelo blog que contém muitas informações para quem pretende viajar para a Índia. Em alguns lugares que vc foi também já visitei: Auroville, Pondicheri, Madurai...

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