terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Om Namah Shivaya



Na viagem de trem de Bellary até Hospet percebi que estava a caminho de um lugar de tradição de culto à Shiva. Vi algumas pessoas com as três listras brancas na testa, insígnia shivaísta. Vi também um senhor, trajado como um devoto, segurando um trishula (especie de tridente, um dos símbolos de Shiva). Parecia que estava num filme!

Para quem não está familiarizado com a deidade, Shiva faz parte da tríade de deuses mais importantes do Hinduísmo. Os outros dois são Vishnu e Brahma (a cerveja veio muito depois). Shiva representa a destruição das velhas estruturas, a transformação. Não é à toa que é o patrono do Yoga, que é uma filosofia de autotransformação.

Ao pisar em Hospet, um muchacho muy simpático, com a mesma marca shivaísta na testa, nos recebeu na saída da estação e, não sei como, percebeu a nossa origem e arriscou algumas palavras em espanhol. Sobre isso, não posso evitar o comentário: é impressionante como a tradição do comércio com os ocidentais, que data, pelo menos, da época das grandes navegações, ficou impregnada na cultura do povo daqui. Um indiano nato dá um jeito de se comunicar com você, e lhe vende qualquer coisa.

Pois bem, esse muchacho nos ofereceu um rickshaw (espécie de moto, só que de três rodas, que funciona como táxi) que nos levou até Hampi, o sítio arqueológico que mencionei no post anterior. Um lugar que posso chamar de mágico, com uma vibração muito forte, segundo a nossa percepção.

Hampi está cercada de montanhas, com um rio que a corta. O principal atrativo do lugar são suas ruínas arqueológicas, que datam do período medieval, e com inúmeras referências dravídicas. Diz-se que os drávidas foram os povos originários da Índia, e que tinham uma cultura muito particular, fortemente matrialcal.

Pude observar também que, fora o turismo, a economia nativa deve ser movimentada pelo cultivo do coco, da banana e da criação de cabras e de vacas. Como a vaca aqui é sagrada, somente se cria gado para o uso no transporte (ainda há carroças puxadas por touros por estas bandas) e, obviamente, extração de leite. A mistura do clima árido do lugar, as cabras, bois e os coqueiros me fez sentir numa espécie misto de sertão com litoral.

As pedras das montanhas de Hampi são bastante similares a meteoritos, com umas formas bastante estranhas, que se equilibram umas sobre as outras de maneira surreal. Como não posso evitar fazer referências com o Brasil, em Hampi me lembrei muito da Pedra da Gávea, gigante, de onde vaza um sol, como diria Gilberto Gil. Pois as pedras de Hampi são parecidas, embora muitíssimo menores, mas uma coisa têm em comum: a disposição das pedras são uma verdadeira instalação. Parece mais obra de ETs do que da própria natureza. Pois foram essas rochas a matéria prima para a construção dos templos de Hampi, que contam com um trabalho de escultura sobre pedra minucioso.

Além das ruínas de um palácio, com uma muralha, piscina, espaços de contemplação artistística, estão os templos. O primeiro, que fica na entrada do vilarejo de Hampi, é dedicado à Shiva. Na primeira tarde, fomos dar uma volta para conhecer algumas ruínas e, já no cair da noite, começamos a escutar, ao longe um mantra: OM NAMAH SHIVAYA. Tanto eu quanto Gaba somos muito ligados nos mantras, então o som funcionou como imã. Lá fomos nós levados pelo mantra, meio hipnotizados. Acordamos quando dois senhores começaram a gritar e apontar na nossa direção, mandando-nos tirar os sapatos. Em todos os templos que visitamos aqui, fosse hindu, jaina ou budista (ainda não fomos a nenhuma mesquita, mas provavelmente o procedimento deve ser igual), tivemos que deixar os sapatos na porta.

Graças a esse detalhe prático, nos demos conta do nosso estado. Aquele mantra era uma gravação, veiculada pelos auto-falantes postos na porta do templo, para marcar o horario dos rituais de puja (oferenda, reverência), sempre no fim da tarde. Os hindus praticantes acendiam lâmpadas de azeite ao redor do monumento localizado na entrada, que tinha uma estátua de Nandi (a famosa vaca sagrada, outro dos símbolos de Shiva) e faziam suas preces.

No dia seguinte, com a luz do dia, pudemos percorrer o templo e ver os detalhes da escultura nas paredes e nos tetos, não somente lá, como também nas demais ruínas ao redor. É realmente impressionante a quantidade de detalhes rebuscados, ao estilo barroco. Esse mesmo estilo pudemos ver nas ruínas de Belur e Halebidu, futuro post.

Um elefante enorme e muito simpático (não era permitido tirar fotos do bichinho) nos recebia na entrada, e dava a bênção com a tromba aos devotos que o presenteassem com uma moedinha, hehe. Obviamente, ele foi treinado para isso, as moedas eram em benefício do templo, e ele as entregava com a tromba ao senhor que o cuidava.

Pude perceber uma coisa, não somente nesse, como em outros templos que visitamos depois: há muito estímulo e espaços para a puja, a reverência, mas não muito para a meditação. Ainda assim, eu e Gaba sentamos em um dos salões e tratamos de meditar, mesmo com o vai-e-vem de visitantes e devotos. E sentimos uma força extraordinária naquele lugar. Pude canalizar, enquanto me conectava com todos aqueles totens, que eles nada mais são que o símbolos de aspectos da energia primordal, ou divina, se preferirem. E que os deuses africanos, nesse sentido, são similares: representam as manifestações das diversas formas dessa mesma energia.

Nesse templo, tive a clara percepção, não intelectual, mas realmente sensorial, de que todas as religiões são as leituras que o ser humano dá ao aspecto divino ou transcendental. E que essa mesma manifestação do absoluto, representada pelos deuses, em suas diversas formas, está presente na natureza, nos animais, plantas, inclusive nas pedras. E até mesmo (e principalmente)... nos próprios seres humanos. OM Namah Shivaya!

4 comentários:

  1. Lendo todos os posts seguidamente pensei numa coisa: vc deveria compilá-los e publicar um livro no final de tudo Clá!
    Delícia fugir um pouquinho do trabalho no meio da tarde para me encontrar com vcs na Índia!
    beijo

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  2. Obrigada pelo estímulo, Aninha! Estou sendo levada a voltar a escrever mais cotidianamente, e o faço com muito prazer porque, para mim, estar aqui é realmente uma descoberta atrás da outra que eu preciso registrar :) Obrigada por nos acompanhar., beijo grande!

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  3. Clá, estou amando os textos, fico imaginando as cores do lugar quando leio seus relatos. A Índia parece ser um grande estímulo sensorial. Que experiência fantástica a sua! Espero que a viagem continue suave, e repleta de boas surpresas. Obrigada por partilhar! Bjks

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  4. Obrigada, Mari! Beijo grande, adoro saber que vc está nos acompanhando. Vc tem razão: a Índia, até agora, tem me mostrado o melhor dela. Embora existam muitos outros aspectos, tenho conseguido me conectar quase sempre com a alta qualidade humana que existe neste lugar :)

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