sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Belur, Halebidu and Merry Christma's

Vou abrir um breve parêntesis aqui, em homenagem à minha querida bróder de lanches e trabalhos em equipe na nossa pré-adolescência no Isba, Mariele: sim, é possível ficar em lugares limpinhos e decentes na Índia sem pagar preço de Maharaja. Não existe apenas a opção de desembolsar o mínimo de U$ 100 por dia de hospedagem, como algumas pessoas pensam, para ter um mínimo de higiene e conforto. Eu e Gaba estamos aqui pra provar que com um terço ou um quarto disso se pode conseguir algo legal.

As únicas exceções, até agora, foram Hassan e Mangalore, que, coincidência ou não, eram lugares de passagem. Os hotéis em ambos ficaram abaixo dos demais em vários itens, mas como a gente ficou lá por pouco tempo, não chegou a traumatizar.

Por outro lado, fazendo a conversão de rúpias para reais...em geral, as diárias dos quartos de casal nos lodges/pousadas/hotéis que ficamos estão custando um pouco menos que a diária individual num quarto coletivo de albergue no Brasil! Bom, nenhuma delas inclui café-da-manhã (aí já seria demais). Ocorre que, quando se faz uma viagem por tanto tempo como a nossa (quatro meses!), e se queremos ir a tantos lugares, não dá para ficar convertendo o tempo inteiro porque, senão, vamos parar na bancarrota, haha. A menos que você seja um Maharaja de verdade, ah, bom. Aí realmente são outros 500 :)

Enfim, o nosso hotel com cheirinho de mofo em Hassan tinha móveis velhos, era escuro, mas as roupas de cama eram limpinhas, hehe. Pois é, Mari, isso eu não negocio. Aliás, sempre se pode (e se deve) ver o quarto antes de pagar.

A vantagem de ficar em Hassan, como eu disse, é que está muito próxima dos templos de Belur e Halebid, que, sim vale a pena visitar. Ambos têm um trabalho fantástico de escultura que, no caso de Belur, tardou nada menos que um século em ser concluído. Nós fomos primeiro a Halebidu e depois a Belur, mas, o que mais nos impressionou, em termos de trabalho de escultura sobre pedra, foi o segundo. Abaixo, foto com detalhes da escultura do templo de Belur, feita com perfeição em 3D.

Tanto Belur quanto Halebidu são relíquias da Idade Média, não tão antigas assim. Em ambas se nota que a mulher tinha outro papel na sociedade, pois estão representadas quase sempre dançando, tocando instrumentos, com uma vida social, artística e sexual muito intensa. Quase todas aparecem semi-desnudas, assim como os homens. O clima do lugar pede, por Dios. A falta de roupa, entretanto, cede lugar aos adornos, inclusive nos seios. Por falar nos enfeites, haja colares, pulseiras, anéis, inclusive no dedo médio do pé, e tornozeleiras nas estátuas. Talvez os adornos sejam uma das poucas heranças daquela época que as indianas prezam até hoje. Detalhes dos templos de Halebidu nas fotos abaixo.

As mulheres de hoje estão supervestidas, não importa o clima, não importa aonde. Seja na praia, na montanha, no deserto ou numa casinha de sapê, a esmagadora maioria usa sari ou kurta (espécie de blusão com uma calça folgadinha por baixo, com um chale atravesando o peito). Se o calor for insuportável, usa-se a mesma quantidade de pano que se estiverem enfrentando o frio dos Himalayas. Talvez o que mude seja a espessura do tecido.

Observo que as mulheres daqui, além de se vestirem demais, em geral têm uma atitude corporal submissa e oprimida. Muitas andam encolhidas, se escondem. As que são casadas raramente demonstram publicamente afeto, apenas se este for dirigido às crianças. E são justamente os pequenos os que têm direito a andar como querem, peladinhos. Não usam nem fralda, seja menino ou menina, pelo menos até onde observei. No máximo, uma blusinha. As meninas, pré-adolescentes, ainda não tão formatadas, deixam escapar algo de sensualidade e picardia, coisa muito rara.

Enfim: aonde foram parar aquelas mulheres sensuais, participativas nos movimentos artísticos e liberadas sexualmente que aparecem retratadas nos templos de Belur e Halebidu? Reencarnaram na outra banda da Terra; muitas no Brasil, talvez. O mais curioso é que, justamente enquanto o ocidente enfrentava um dos períodos de maior repressão e escuridão da História, a Índia vivia o nascimento do Tantra! Isso é realmente muito louco. Se existiu uma ou mais sociedades de organização matriarcal na Índia ou em outras partes do globo antes disso (seguramente existiram), nenhuma delas, pelo menos que se conheça, deixou o legado de escrituras filosóficas e culturais que o movimento tântrico, que surgiu aqui, na Idade Média, deixou. Detalhes de esculturas sensuais em Halebidu.

Dentro do templo de Belur, em frente a um dos altares, havia um círculo de pedra que a rainha da dinastia dos Hoysalas, que governaram aquela região durante o período em que ambos templos foram construídos, dançava para as deidades. Do lado de fora, é possível, inclusive, ver algumas esculturas de casais em poses sensuais, bem parecidas com as do templo de Khajuraho, conhecido como o templo do "Kama-Sutra". Aliás, no sul da Índia, pode-se dizer que as esculturas de Belur e Halebidu rivalizam com as de lá, com a diferença que, aqui, não são monotemáticas: há também representações dedicadas aos deuses hindus e também para as manifestações culturais e costumes da época. Não há uma escultura que seja exatamente igual a outra. É impressionante.

Então, é Natal (nãããão! Quando eu lembro do Brasil e penso que as lojas devem estar colocando essa versão de Simone no repeat, me dá um alívio estar aqui, hehe)! No momento, estamos em uma praia maravilhosa e relaxada chamada Varkala, uma espécie de "ilha" ou "bolha" européia no sul da Índia, no adorável e tropical estado de Kerala. Estivemos aqui quatro dias, descansando para seguir com o nosso itinerário. Já contarei sobre nossa lagartixagem aqui em Kerala, ô lugar que me faz lembrar o litoral do nordeste, hehe. Amanhã, na noite de Natal, estaremos em cima de um trem rumando para Madurai, uma cidade que abriga templos fantásticos, já no Estado de Tamil Nadu. Assim que provavelmente só postarei do dia 25 em diante, portanto:

Feliz Natal para todos, Namaste! :)

4 comentários:

  1. sim, gostei do bróder... Kkkkk Clarice Val, vagal, agora em terras indianas :)
    lindos templos e esculturas de mulheres voluptuosas! já botavam silicone naquele tempo? rsrsrs
    mas é incrível como existem essas rupturas temporais na história da humanidade - a idade média não é privilégio só do ocidente. acho que faz parte, essas idas e vindas. em alguma medida tb fazemos isso em nossas vidas.
    bj grande querida, pra vc seu gringo. rsrsrs Feliz Navidad!

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  2. Interessante buscar entender aonde se deu essa quebra da India matriarcal para esse extremo oposto que se vive hj!
    To aqui, navegando com vcs!
    beijos

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  3. pois eh, Mari, eu tb fiquei na duvida! haja peito siliconado nessas muchachas das estatuas, hahah!
    adorei o seu ponto de vista sobre os vai-e-vens da historia mundial e pessoal. Feliz Navidad pra ti tambien, querida, ho ho ho :)

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  4. Aninha, adoro ter vc por perto! Ja me lembrei bastante da gente aqui, hehe! Dos nossos estudos na sua casa, daqueles quadros sinopticos (lembra?, hahah). Tao diferente quando tudo aquilo toma forma e cria vida, diante dos nossos olhos :) Ah! Sonhei com tia Katia aqui na India! Nem lembro do sonho direito, alias, ando com o subconsciente sacudido! Beijo grande :)

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